08 de julho de 2026

Precisamos da Copa do Mundo?


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A última semana foi marcada por manifestações contra o aumento no preço do transporte coletivo em várias grandes cidades do País. Porém, em São Paulo, em razão da violência com que os protestos foram reprimidos, o assunto ganhou os noticiários de TV e as páginas de jornais do mundo todo. Ao mesmo tempo, outro tipo de manifestação, não menos ruidosa e que foi reprimida também com rigor em Brasília na sexta-feira e no sábado, começa a chamar a atenção e ganha adeptos em todo o País. Com a promessa de ser replicada nas capitais brasileiras onde ocorrem os jogos da Copa das Confederações e serão disputados os da Copa do Mundo de 2014, o movimento ‘Copa pra Quem?’ promete muita movimentação até o ano que vem.

O protesto questiona o dinheiro público que está sendo gasto na realização dos torneios no Brasil, enquanto Saúde e Educação, por exemplo, não conseguem atender de forma satisfatória o cidadão brasileiro justamente pelas parcas verbas que recebem. O problema maior é que, ao contrário do que se afirmou quando o Brasil apresentou sua candidatura para sediar as Copas da Confederação de 2013 e do Mundo de 2014, além dos Jogos Olímpicos de 2016 (este, a cargo do Rio de Janeiro), todos os envolvidos deixaram claro que nenhum dinheiro público seria investido: construção de estádios, reformas e obras de infraestrutura ficariam a cargo da iniciativa privada.

De lá para cá, o que se viu foi uma verdadeira farra: o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e governos estaduais e municipais bancando obras, aditivos elevando consideravelmente o preço inicial de estádios, projetos que nunca saíram do papel (como o trem-bala, que deveria ficar pronto até 2014 para ligar São Paulo ao Rio de Janeiro, passando por Campinas). Ou seja, nada do que foi prometido aconteceu. Um dos casos gritantes é o do Estádio ‘Mané Garrincha’, em Brasília, onde as centenas de milhões gastos na sua reconstrução saíram do governo do Distrito Federal. E depois da Copa, corre o risco de se transformar em mais um elefante branco, pois não há uma cultura futebolística que arraste multidões de torcedores brasilienses para assistir a partidas entre os inexpressivos times locais.

Fosse o Brasil um país sério, as necessidades do seu povo deveriam ser prioridades para os nossos governantes. Porém, como é exatamente o contrário disso, oferece-se o circo sem que a maioria da população tenha como garantir o pão. A organização de uma Copa do Mundo só teria sentido caso a iniciativa privada tivesse bancado o investimento. Como tal não aconteceu, continuamos ainda com a síndrome de país de terceiro mundo, onde as aparências importam mais do que a realidade.

Voltando aos protestos contra as tarifas do transporte, nada disso estaria acontecendo se parte do dinheiro despendido em estádios fosse aplicado na infraestrutura de transportes. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, com a passagem de ônibus custando mais de R$ 3,00, os passageiros pagam caro e andam mal. Nestas cidades, enquanto o progresso vertiginoso não freia o crescimento urbano, as obras ferroviárias e de metrô seguem a passo de tartaruga. Então, o que a Copa trará de bom aos brasileiros além de mais um título mundial? A essa altura, nem isso é visto como garantido pelos torcedores.