Por trás de um passado de assédio e fama, um presente de estigma e insatisfação começou a se desenhar na vida da francana e ex-dançarina do Programa do Chacrinha, Sandra Maria Nicácio Dias. No ponto de vista da ex-chacrete - assim como no de muitas outras colegas suas que estudam a possibilidade de processar a Rede Globo - as profissionais vêm sendo representadas de modo pejorativo na novela da emissora, Amor à Vida. Com texto de Walcyr Carrasco, a atriz Elizabeth Savalla tem construído em Márcia, a ex-chacrete que interpreta na trama, uma caricatura que engloba um passado de prostituição e um presente de oportunismo. “O problema é a forma preconceituosa com que o autor nos retratou”, disse Sandrinha Pureza - como era conhecida no palco do Velho Guerreiro - em entrevista ao programa Show da Manhã, do radialista Valdes Rodrigues, na rádio Difusora. “Uma frase que mais nos deixou margem para a irritação foi quando ele [autor] falou: ‘se foi chacrete, deve estar despencando, porque a natureza é cruel.’ Ele também disse que: ‘se foi chacrete, deve conhecer todo mundo no mundo do crime.’ Se usa esses termos para falar das chacretes sem especificar quem, ele inclui a todas”, completa, referindo-se ao grupo pelo qual mais de 500 dançarinas já passaram.
Com uma vida longe dos holofotes, hoje, aos 49 anos, Sandra divide seu tempo entre o marido, com quem está casada há 25 anos; o filho, que tem Síndrome de Down; a sua terceira faculdade e a administração dos negócios do marido no Rio de Janeiro, onde mora desde o início dos anos 80. E, mesmo com a rotina agitada, ela garante ter tempo para visitar os familiares que ainda vivem em Franca. “Tenho na cidade meu tios China e Ana, que me criaram. Também moram em Franca meu pai, Joel, meus irmãos Selma, Miriam e Jerônimo Júnior, além de muitos primos, sobrinhos e outros tios.”
Em entrevista ao Comércio, Sandra revelou as lembranças que tem de sua adolescência em Franca, de como conseguiu tornar-se chacrete e como foi se afastar do badalado universo da TV. Sandrinha ainda relembra sua relação com Chacrinha, com quem conviveu nos últimos anos de sua vida.
Comércio da Franca - Você nasceu em Franca mas muito cedo foi viver em outra cidade. O que motivou sua partida?
Sandra Nicácio - Quando meu pais se separaram, vim para um colégio interno no Rio de Janeiro, aos 5 anos. Dois anos depois voltei para Franca e, até os 8, morei com a minha mãe e pai de coração, Cida e Ruy Balieiro. Foram os momentos mais felizes da minha infância. Aos 9, meu pai [biológico] me levou para São Paulo, mas, quando minha mãe soube que estava com ele, me trouxe de volta para o Rio. Como precisava trabalhar e não tinha com quem deixar minha irmã Sônia e eu, nos colocou numa casa para trabalharmos como domésticas. Aos 10 entrei, pela primeira vez em uma escola. Aos 11 voltei para Franca onde vivi até os 17 com o meu tio China.
Comércio - Que recordações guarda dessa época em Franca?
Sandra - Tenho muitas recordações, principalmente do bairro Santa Rita, onde nasci e vivi a minha adolescência. Lembro-me do bar Pajé, no Centro, onde meus amigos e eu conversávamos sempre; do Clube dos Bagres aos sábados e domingos, onde ia para pegar sol; do Vale dos Bagres, onde tinha uma pista de patinação que frequentava com minhas irmãs; da AEC e seus bailes. Também me lembro do Dante Guedine, onde estudei. Meus amigos me chamavam de Carioquinha. Tive a minha carteira de trabalho assinada pela primeira vez na fábrica Calçados Castaldi. Foram momentos inesquecíveis.
Comércio - Quando chegou ao Rio, já adolescente, em que trabalhou antes de se tornar chacrete?
Sandra - Meu primeiro emprego foi em um shopping, no escritório das Lojas Helal. Depois fui vendedora de material para gráficas; trabalhei em uma administradora de imóveis e, por fim, na diretoria de material da Aeronáutica, como supervisora da empresa Sadi Assessoria e Serviços.
Comércio - Como a oportunidade de trabalhar com Abelardo Barbosa, o Chacrinha, chegou até você?
Sandra - Tinha 19 anos. Sempre passava em frente à produção do programa Buzina do Chacrinha e batia a vontade que tinha desde criança, de um dia dançar com aquelas botas acima dos joelhos que as chacretes usavam. Um dia tomei coragem e entrei. A produção pediu foto e alguns documentos que deixei com o diretor Leleco Barbosa. Passou-se um tempo e eles me ligaram dizendo para eu ir ao Teatro Fênix para fazer o teste de dança. Cheguei e todas as meninas estavam lá. Gelei. Bem, ensaiei com as chacretes e, no final, o diretor falou para continuar indo aos ensaios. Fiquei nessa por quase um ano, mas não surgia nenhuma vaga. Um belo dia, um famoso amigo meu, J. Ricardo, o Jóquei, me viu entrando no teatro e contei a ele que estava ensaiando. Aí ele me deu uma força pedindo para o diretor me contratar. Depois de duas semanas surgiram algumas vagas e tive minha carteira trabalhista assinada. Havia acabado de fazer 20 anos. Entrei em agosto de 1984 e saí em junho de 1988, quando o Chacrinha morreu.
Comércio - Na época, você teve apoio de seus pais?
Sandra - Praticamente cresci sem eles, mas tive o apoio da minha família. Eu era a estrela [risos].
Comércio - Como foi para uma jovem do interior lidar com o deslumbre da fama e da cidade grande?
Sandra - Gostava desse deslumbre, era um sonho realizado viver ao lado de artistas, trabalhar na Rede Globo, conquistar muitos fãs. Era muito feliz. Até da passeata das Diretas Já, no centro do Rio, participei. A cidade não me assustava muito. O difícil era a rotina de trabalhar na Sadi, à noite continuar estudando e, aos finais de semana, gravar na Globo. Mas havia conseguido materializar tudo o que havia planejado. Para mim, a palavra impossível não existia. Nessa época de Rede Globo conheci o Luiz Carlos, meu marido que me ajudou a seguir adiante.
Comércio - O que a fama lhe proporcionou de melhor e pior?
Sandra - Realizar um sonho não tem preço. A fama nunca me proporcionou nada de pior. O único problema foi ter ficado muito tempo sem visitar minha família por causa das gravações, trabalho e estudo. E a frustração de que, quando entrei para o programa, as chacretes não mais usavam as botas acima dos joelhos [risos].
Comércio - Você disse no Programa do Valdes que logo que o Chacrinha morreu, recebeu convites para trabalhar em outros programas...
Sandra - Sim. Bolinha e Raul Gil me convidaram. Das novelas não me lembro os nomes. Mas eu, da TV, só queria mesmo era ter dançado no Chacrinha. Havia acabado de entrar para a faculdade de administração de empresas quando o Chacrinha morreu e meu foco mudou, meus sonhos eram outros.
Comércio - Muitas ex-chacretes afirmam que Chacrinha era como um pai para elas. Isso é verdade, ele era protetor, ou isso é mito?
Sandra - Sim, ele nos protegia dos assédios. Na realidade, a Rede Globo tinha um padrão de comportamento que o Chacrinha seguia, chegando a nos proibir de conversar com os cantores, de encontrar com o namorado na frente do teatro onde gravávamos e, quando fazíamos show pelo Brasil, ficávamos trancadas dentro do quarto. Somente saíamos para comer e fazer o show. Para visitar as cidades, a condição era que o Chacrinha estivesse junto e com os seguranças. Parecia um pai mesmo. Meu apelido, Sandra Pureza ou Sandrinha Toda Pura, foi o eterno Chacrinha que me deu. Ele dizia que eu tinha cara de anjinho.
Comércio - Como era sua relação com ele?
Sandra -Nosso contato só acontecia durante as gravações e os shows. Eu o admirava muito pela sua simplicidade. Era como se fosse o meu avô. Sempre serei grata a ele por todo o carinho.
Comércio - Depois que a rotina de chacrete acabou, que rumos sua vida tomou?
Sandra - Continuei trabalhando na Sadi, onde fiquei por 10 anos, e conclui a faculdade de administração. Depois resolvi investir no jiu jitsu. Meu marido e eu fizemos, durante uns 15 anos, trabalho social com o jiu jitsu nas comunidades carentes do Rio de Janeiro. Hoje levo a vida normal de uma mulher casada que cuida de um filho de 5 anos. Meu único filho, Mário Victor, nasceu com Síndrome de Down. Além disso, curso direito e psicanálise. Em outubro me formo e, depois, inicio o mestrado em psicanálise.
Comércio - Algumas ex-chacretes estão revoltadas com a novela Amor à Vida. Que aspectos abordados incomodaram vocês?
Sandra - Nossa advogada está estudando o assunto e já entramos em contato com o setor jurídico da Globo. Ninguém pode sofrer qualquer tipo de preconceito em sua profissão. O autor de uma novela não pode copiar um personagem denegrindo a imagem social e profissional dele. As chacretes representam um símbolo feminino que contribuiu para acabar com os machistas da época da ditadura, sofreram censura, mas ao final, fincaram a bandeira de realização de sonhos. As chacretes inspiraram muitas bailarinas de hoje. Um autor de novela que fosse escrever sobre elas, deveria investigar sobre a cultura, a vitória das mulheres contra a submissão masculina, ou seja, o que elas significaram. Não gostamos das falas pejorativas do autor, que afirma que conhecemos pessoas do mundo do crime. Não gostamos de ele ter transformado a personagem em ex-garota de programa e de suas falas sobre a idade.
Comércio - Fala-se muito em processo contra a Globo e o autor. Como está este plano?
Sandra - Que vai haver processo, vai, e será coletivo. Só não sei quantas envolvidas.
Comércio - Como esperam que a Globo se retrate?
Sandra - O leite está derramado, não é?! Esperamos um pedido de desculpas, uma melhor qualificação para personagem sem denegrir a imagem do grupo e causar danos morais.
Sandra atualmente mora no Rio com a família