Parece simples combinar um passeio em Rifaina, tão perto daqui, estrada nem tão boa, nem tão ruim, bonita. Mas o fato é que sempre acontece um senão e a gente vai empurrando, mesmo se sentindo na obrigação de experimentar um determinado prato. Até que, para minha sorte, minha filha arrumou um evento na represa da Jaguara, em Sacramento, e me vi, prazerosamente, obrigada a descer para aquelas paragens.
Com tudo combinado com antecedência, cortei os senões pela raiz e me levantei bem animada. Um hiato nas inesperadas chuvas desse nosso outono, e um sábado lavado e fresco descortinou um céu aberto, azul, alegre. Normalmente escolheríamos para o rádio uma música à altura dessa imensa paz, mas minha filha e eu, em núpcias com o Criolo, optamos por algo que é bom, mas deixa claro a dualidade da vida.
Enquanto tudo parecia estar no seu lugar, a voz nos lembrava que em alguma parte, mais precisamente em São Paulo, não existia amor. Enquanto a natureza, à nossa volta, revelava sua faceta mais delicada, o rádio insistia em nos lembrar que buquês, embora lindos, são feitos de flores mortas, e por aí vai.
Chegamos à Rifaina exatamente ao meio-dia, e foi muito fácil encontrar o restaurante Barracão, que fica na orla da praia. O local é grande, limpo e adequado ao retorno financeiro que a cidade pode lhe dar. O restaurante trabalha com dois sistemas de serviço: cardápio e o self service - o preferido da maioria dos frequentadores daquele horário. A pista estava bem abastecida com vários tipos de carnes e saladas simples e frescas.
Nós estávamos ali pela traíra desossada frita, um dos pratos finalistas do concurso Sabor SP, que busca encontrar e identificar os mais gostosos pratos que melhor representem o interior de São Paulo. Pois bem, a atendente calculou o tamanho do peixe pelo número de bocas famintas, o acompanhamento: batatas, claro, saladinha e arroz.
O restaurante estava tranquilo, o prato demorou cerca de 20 minutos para chegar, a apresentação foi a esperada: aquele peixão bonito cercado por folhas verdes, tomates, batatas fritas distribuídas em montinhos. A empanação estava correta, bem crocante, moreno, sem encharcar, o peixe com sabor suave, e úmido por dentro. Tudo muito bom, comemos muito bem.
Fui conversar com o senhor Carlos, o proprietário. Ele nem acha que este seja seu melhor prato, nem é o que mais vende. O preferido do público é a picanha na pedra, uma espécie de rechaud comporta as tiras de carne, a pedra quente sustenta a temperatura da carne por um bom tempo. Mas a descrição mais entusiástica do senhor Carlos foi a do peixe na telha. Perguntei-lhe se conhecia o peixe na telha do Restaurante Barão e ele, sem disfarçar o orgulho, assegurou: o meu é melhor! O tal peixe é diferente do nosso velho conhecido daqui de Franca. O molho leva requeijão, e nacos de queijo provolone povoam o molho. Não experimentei, mas, sinceramente, acho injusta a briga entre um provolone e um peixe - e se é peixe na telha, não provolone na telha, aquele deveria sobressair...
Pra mim, o melhor de tudo foi o pós. Ultimamente tenho passado mal com comidas compradas, estou bem mal acostumada ao “faça em casa”, não coma enlatados, daí que meu estômago denuncia os conservantes e os famigerados amaciantes de carnes. E o peixe do senhor Carlos deixou-se digerir confortavelmente, honestidade que vale ouro: foi traíra frita que comi. Valeu o passeio, valerá para vocês também, desde que partam daqui com as justas expectativas.
DICA DA SEMANA
Molhos
Verdadeira paixão brasileira são os molhos para banhar nossos macarrões. Aliás, para mergulhar nossos macarrões, já que a maioria de nós prefere aquele macarrão com muito molho mesmo.
Experimentei um molho “vindo” diretamente da Itália, em Bolonha, muito famoso, chamado Al Cantunzein, que já teve seu tempo de sucesso, quase uma lenda. Os ingredientes são simples, mas tem o chato do pimentão que deve ter a pele retirada antes. Para isso, coloque-os antes diretamente sobre a chama do fogão até estralar aí é só ir puxando a pele.
Bem, o molho leva: 2 pimentões amarelos, 1 pimentão vermelho, cebola bem picadinha, 4 linguiças caseiras sem temperos fortes, pimenta do reino moída na hora, 1 xícara de tomates pelados em lata, 1 colher de sopa de manteiga e 2/3 de xícara de queijo parmesão bem curado.
Coloque a cebola para dourar no azeite, cerca de 4 colheres de sopa. Feito isso adicione as linguiças e cozinhe por 2 minutos, depois os pimentões sem sementes e sem pele, cozinhe por mais 8 minutos, por último os tomates, cozinhe por mais ou menos 15 minutos em fogo alto. Outro segredinho: o molho estará pronto quando o azeite subir para a superfície.
Por fim, jogue o molho por cima de um bom parpadelle, adicione a manteiga, mexa, e o queijo. Sirva.