Passava do meio-dia da última quinta-feira. No Ginásio Poliesportivo, o calor era grande. Na quadra ainda cheia, uma mulher pequena cercada de admiradores, fotógrafos, cinegrafistas e políticos posava para fotos, dava autógrafos e distribuía abraços e beijos. Sempre com um sorriso no rosto. A primeira-dama do Estado de São Paulo, Maria Lúcia Guimarães Ribeiro Alckmin, a Lu Alckmin, esteve em Franca para a cerimônia de abertura do Jori (Jogos Regionais dos Idosos), uma iniciativa do Fundo Social de Solidariedade, que ela preside, e das Secretarias de Saúde e de Esporte.
Encerrada a cerimônia, por mais de 30 minutos, ela permaneceu no ginásio até que o último interessado em tirar uma foto com ela fosse atendido. “Sou assim. Sempre atendo a todos, mesmo que tenha que ficar sem almoço. Acho que isso é respeito.”
A voz suave engana quem pensa que a primeira-dama do Estado seja uma mulher condescendente. Pelo contrário. Ela tem pulso firme e determinação. A aparência também não revela seus 61 anos.
Quando assumiu pela primeira vez a presidência do Fundo Social de Solidariedade do Estado de São Paulo, em 2001, Lu tinha o sonho de popularizar os cursos de capacitação. Começou convencendo empresários a doar material e equipamentos. Em pouco tempo, espalhava pelo Estado, com o auxílio das prefeituras, suas padarias artesanais, onde mulheres e homens aprendiam a confeitar. Hoje, além das padarias, ainda existem cursos na área de moda, beleza e construção civil.
Lu Alckmin, presidente do Fundo Social, também fez questão de envolver os jovens que estudam nas universidades paulistas. Criou o programa Universidade Cidadã, em que os estudantes trabalham nas comunidades carentes prestando serviços.
Uma apaixonada declarada pelo marido, o governador Geraldo Alckmin (PSDB), Lu disse que o assunto eleições presidenciais de 2014 ainda não foi debatido em sua casa. O Dia dos Namorados, nesta semana, deve ser comemorado no sítio da família em Pindamonhangaba. Lu e Alckmin têm três filhos - Sophia, Geraldo e Thomaz - e três netos.
Comércio da Franca - Como presidente do Fundo Social, a senhora defende o conceito de solidariedade educativa, em que a capacitação profissional exerce um papel importante. Qual a opinião da senhora sobre a concessão de bolsas como forma de reforço de renda, como acontece no Programa Bolsa Família?
Lu Alckmin - O Bolsa Família é um programa importante, mas ele sozinho não resolve o problema das famílias mais carentes. É preciso uma complementação. Defendo a qualificação das pessoas para que elas possam ter seu próprio dinheiro. Possam ser mais independentes. Nosso foco é esse. Desde que assumi o Fundo Social de Solidariedade do Estado, em 2001, estamos ampliando a oferta de cursos para a população, tanto homens como mulheres, jovens ou idosos. Nosso objetivo é oferecer a essas pessoas a oportunidade de aprender algo para que possam ter a própria fonte de renda, para que possam sustentar suas famílias.
Comércio - A senhora sempre esteve envolvida com as causas sociais e a ajuda às pessoas mais carentes. Mesmo antes de seu marido assumir o governo de São Paulo. Por que resolveu ajudar os mais necessitados?
Lu Alckmin - Sou de uma família em que meus pais tiveram 11 filhos e ainda adotaram mais um. Éramos doze. E nunca nos faltou carinho, amor. Minha mãe ainda encontrava tempo para ajudar os mais carentes. Sempre defendo o exemplo. E minha mãe foi meu exemplo de solidariedade. Tenho uns flashes de quando tinha uns três anos. Eu me lembro de ficar olhando para ela ajudando os outros e pensar: “eu quero ser igual a ela”. A vida inteira busquei isso. Mas quem me deu a maior oportunidade de realizar esse sonho de criança foi o meu marido, Geraldo Alckmin. Quando ele assumiu o governo de São Paulo, em 2001, fui indicada para o Fundo Social como presidente e voluntária. Pude fazer um trabalho muito maior. Antes, fazia com vizinhos, com amigas, mas como presidente do Fundo, pude envolver toda a sociedade, todos aqueles que têm condições de ajudar os que não têm. Trabalho por amor. É um sonho que estou realizando.
Comércio - Neste trabalho junto às famílias mais carentes, que história mais a emocionou? Por que?
Lu Alckmin - Difícil dizer qual mais me emocionou. Foram muitas histórias de luta, de amor, de carinho pelo próximo. Mas me lembro de uma ocasião em que estava visitando uma comunidade na periferia de São Paulo e conversava com uma senhora que praticamente não tinha nada em casa para alimentar os netos e filhos. Era um bairro pobre, não tinha tratamento de esgoto, as pessoas viviam ali muito precariamente. Estava na rua conversando com essa senhora quando uma outra mulher mais jovem se aproximou e nos interrompeu. Ela pediu ajuda. Queria arroz e feijão para alimentar os filhos. A senhora, que tinha tão pouco, deu a chave de sua casa para ela e ainda disse que ela podia pegar, além do arroz e feijão, café e açúcar. Fiquei olhando aquilo e não me contive. Perguntei como ela estava doando a outra pessoa se ela mesma tinha tão pouco. E ela me respondeu que a situação da jovem era pior que a dela e que ela não podia deixar de ajudar. Aquela atitude me emocionou. Mesmo depois de ter ido embora, ainda fiquei pensando no que tinha acontecido. É na periferia que vejo mais solidariedade. Não é que a pessoa que está em uma classe social melhor é indiferente. Não é isso. É que muitas vezes se a gente não ensinar os nossos filhos que existem pessoas que não têm o que comer, que não têm onde morar, que sentem frio, eles não vão entender essas dificuldades porque não passaram por isso. É nossa responsabilidade enquanto pais a educação para a solidariedade. Cabe a nós mostrarmos o quanto é importante a ajuda ao próximo. Aquelas pessoas que vivem nas periferias são muito solidárias porque sofrem na pele. São incapazes de ver o sofrimento do outro e não ajudar.
Comércio - A senhora também tem defendido uma participação maior dos jovens nos programas de solidariedade. É fácil convencê-los?
Lu Alckmin - Acho que sim. Tem muitos jovens que querem um mundo melhor, que se interessam pelos programas, que se dedicam. Claro que há aqueles que não querem saber, mas não acho que seja a maioria. Pelo contrário. Quando o jovem percebe que o nosso trabalho é sério e vê os resultados, ele se interessa.
Comércio - A senhora mesma afirma que o governador Geraldo Alckmin encara o trabalho dele como um sacerdócio. Como é ser mulher de um homem que trabalha tanto? Quais os prós e os contras?
Lu Alckmin - Sempre digo que sou uma pessoa muito abençoada. Tive pais maravilhosos que me ensinaram valores como justiça, honestidade, solidariedade. E sou casada com o homem que eu amo. Tenho três filhos incríveis. Três netos saudáveis. Sou muito grata a Deus por tudo. Ele foi tão bom para mim. E, como presidente do Fundo, convivo muito com a miséria e a falta de amor, vejo muita gente sofrendo. Sobre os prós e os contras, posso dizer que a política não me trouxe nada de ruim. Muito pelo contrário. Trouxe só ensinamento. Oportunidade de conhecer pessoas maravilhosas, como líderes comunitárias que ninguém nem conhece e fazem diferença na comunidade em que vivem. Tem uma delas, inclusive, que é minha madrinha, a Cleuza Ramos. Ela cuida de pessoas do Movimento dos Sem-terra e faz um trabalho lindo. Para tudo o que vou fazer sempre a consulto. Porque não vivo a mesma rotina que as pessoas mais carentes, então, preciso de ajuda. E ela me ajuda muito. Fora isso, conheço em todos os níveis da sociedade pessoas maravilhosas. Estou aprendendo sempre.
Comércio - Durante a campanha eleitoral para a presidência, em 2006, a senhora foi uma peça importante. Visitou cidades, fez campanhas nas ruas, esteve presente nos debates. Como foi quando o resultado de todo esse trabalho não apareceu nas urnas? Como foi lidar com essa derrota? Que lições aprendeu?
Lu Alckmin - Foi muito tranquilo. Tudo o que acontece na nossa vida a gente precisa refletir porque Deus escreve certo por linhas às vezes tortas. O Geraldo perdeu as eleições, mas logo depois ganhou uma bolsa de estudos e fomos morar em Boston, nos Estados Unidos. E foi um período muito feliz para nós dois. Ficamos seis meses juntos. Eu que cozinhava. A gente à noite assistia filmes. Foi um momento muito de nós dois. De repente, Deus reservou aquele momento para nós. Nos aproximamos mais ainda. Cada vez sou mais apaixonada por ele. Acho que o amor vem através da admiração e admiro muito meu marido. O Geraldo ama o que faz. Ele ainda é idealista. Ele que me ensinou que política é a arte de servir. Aliás, estamos aqui para servir.
Comércio - Se seu marido resolver no ano que vem se candidatar novamente à presidência do Brasil, terá seu apoio? Ele já discutiu esse assunto com a senhora?
Lu Alckmin - Nossa, sabe que nunca pensei sobre isso. Acho que é porque o Geraldo nunca falou deste assunto comigo. Acredito que ele não deve se candidatar não. Acho que a única eleição para presidente que ele participaria agora seria para ser presidente do Santos Futebol Clube (risos).
Comércio - Como é o governador no dia-a-dia, com os filhos e netos? Estamos na semana do Dia dos Namorados, o governador é romântico?
Lu Alckmin - Para ser sincera, o Geraldo não é muito romântico. Sou mais romântica. Mas ele é um supercompanheiro. A gente gosta muito de caminhar, de conversar à toa. A gente também joga buraco. Nós dois adoramos ler e fazemos isso juntos. A gente também vai para o sítio lá em Pindamonhagaba, que é o lugar onde mais gostamos de ficar.
Comércio - Mas com a rotina de trabalho que vocês dois têm ainda encontram tempo para fazer coisas tão triviais assim?
Lu Alckmin - Você sabe que sim. Sempre digo que se você perguntar a uma pessoa que não faz nada o dia todo se ela pode te ajudar em algo, muito provavelmente a resposta vai ser não. Agora procure uma pessoa com a agenda lotada de compromissos e peça ajuda. Com certeza, ela vai encontrar um tempo para te atender. Isso é uma questão de organização e sou uma pessoa extremamente organizada. Sei onde está tudo na minha casa. Tudo é organizado. Tento ensinar isso para os meus filhos, mas está difícil [risos]. Outra coisa que para mim é muito importante é que sou inteira em tudo que faço. Se estou com os meus netos, brinco, jogo bola, vejo desenho. Se tenho um compromisso, chego no horário e fico até o fim, até atender todas as pessoas. Porque sou assim. Acho que isto é respeito pelo próximo.