08 de julho de 2026

CNH fácil e o resultado...


| Tempo de leitura: 5 min

Tive um insight. Os tristes problemas de trânsito não teriam a ver com motoristas despreparados, que conquistam CNH sem preparação muito adequada?

Estimulou-me a lembrança de alguns dos acidentes recentes. Seus personagens são, na maioria, jovens. Lancei-me a buscar números sobre concessões de novas CNHs. O que consegui, me assustou! Aliás, a mim, e a tantos quantos com os quais troquei informações. Há números que, se ninguém busca, ficam escondidos. Permaneceriam assim, se ninguém os buscasse. É inacreditável o número de novos motoristas de carros e que conseguem, aqui em Franca, o direito de sair por ai autorizados e livres, todos os meses. É uma tese, mas tem que ser discutida: o que deriva desses números, está expresso nas estatísticas de acidentes. E de mortes!

Lembro-me de meu exame de CNH. Faz muito tempo. O delegado da Ciretran na época, era Mansur Jorge Said. Sua figura era respeitada. Se alguém esbarrasse nos postinhos no exame de baliza, ou subia na sarjeta, ‘bomba’. Hoje não. É mole! Há a tradicional marquinha no vidro lateral do carro da auto-escola. O pretendente emparelha-a com o postinho, dá ‘x’ voltas ao volante e vai até o pneu traseiro encostar na sarjeta. Vira um pouco o volante, dá uma chegadinha para a frente e, pronto! Aprovado! A CNH sai em pouco tempo e dá, ao agora ‘motorista de boa baliza’, o direito de ‘encostar’ onde quiser, atravessar semáforos vermelhos, falar contra radares, embatucar-se com faróis quando dirige à noite, cair nos córregos, especialmente sob chuva torrencial; acelerar a mais de 60 quilômetros por hora nas ruas da cidade, buzinar ou ‘botar prá quebrar’ o som poderoso nas proximidades de hospitais ou em bairros residenciais, falar ao telefone quando dirige, andar a 10 por hora na pista da esquerda, atropelar gente, abalroar veículos, morrer, matar e correr para longe, sem prestar socorro, porque, covardemente, ficou ‘morrendo de medo’!

Desafio a polícia a deixar de lado as blitze e sair por aí munida de câmeras de vídeo, flagrando as merdas que maus motoristas cometem nas ruas da cidade. Seriam provas mais que suficientes para tirá-los do volante e tornar o trânsito mais seguro. Quem bate, quem atropela, quem desrespeita sinalização, quem mata, não é o veículo! É o motorista, exatamente esse que o sistema não prepara adequadamente. Não adianta chorar sobre estatísticas de mortes se, a cada mês, milhares de CNHs novas de condutores de carros e de motos são expedidas a quem não tem condição de sair às ruas.

O sistema de concessões de CNHs precisa ser discutido amplamente. Carros e motos são adquiridos, hoje, com facilidades inimagináveis, e estamos autorizando, criminosamente, motoristas e pilotos mal preparados a conduzi-los. É outro viés deste país enviesado, que foca nos problemas, mas não cuida das origens!!!

CUIDADO! CUIDADO! CUIDADO!
Leia. Pense. Pode estar no que conto agora, a origem dos problemas de trânsito. Franca expediu nos meses de abril e maio deste ano, mais de 1,3 mil CNHs para novos condutores de veículos e quase mil para motociclistas!!! Esses quase 2,3 mil novos condutores mal preparados, estão dirigindo por aí, e, não por demérito deles, mas do Estado que os autorizou, são candidatos a acidentes, envolvendo-se ou causando. São, em conta simples, quase 14,5 mil novos por ano!!! E somos uma cidade com mais de 230 mil veículos! Cuidado! Cuidado! Cuidado! Lanço outro desafio: pesquisem a data em que CNHs foram concedidas a quem se envolveu, ou causou, ou causará acidentes no trânsito proximamente. Vamos nos surpreender de novo!

CALEI-ME
Barros Filho, repórter do GCN, tem apresentado comigo, no Jornal da Noite da Difusora, 18 horas de segunda a sexta-feira, boletins de notas policiais diferentes. Procuramos, eu e ele, extrair, de cada nota, algumas lições de cidadania. Temos recebido cumprimentos pelo formato. Temos falado muito sobre a má qualidade dos motoristas locais. Quinta-feira, contamos sobre um abalroamento, ocorrido no cruzamento da rua Padres Agostinianos com avenida Alagoas. Era diferente. O motorista de um veículo chegou à esquina, parou o carro, observou e decidiu-se por cruzar. Abalroou moto. Parou imediatamente. Correu ao motociclista, que estava caído. Preocupou-se. Ofereceu ajuda. Disse que estava errado, que não tinha visto a moto. Felizmente, não houve ferimentos. O motociclista agradeceu-lhe a preocupação. Ainda assim, o motorista do carro quis ir à Delegacia, para fazer Boletim de Ocorrência. Foram. Cumprimentei-o no jornal. Disse que ainda havia bons motoristas no trânsito de Franca. Barros interveio. ‘Luiz. Tudo certo, mas o motorista sobre o qual falamos, é de Uberaba, Minas Gerais...”. Cumprimentei-o de novo. E... calei-me...

BURANELLI
Não concordo com quem diz que o tenente Sérgio Buranelli não está preparado para cuidar do trânsito da cidade. Está! Entende muito do riscado. É presente, não deixa para lá nenhum problema. Analisa, implanta, volta atrás se é necessário. É homem de diálogo. Franca é, certamente, uma das cidades melhor sinalizadas deste País e deve parte disso, a ele. O problema é o péssimo, horrível, despreparado, desqualificado motorista! Deveríamos, a cada novo acidente ou morte no trânsito local, demandar contra o Estado que admite conceder CNH a quem, na maioria dos casos, não está preparado nem para andar a pé. (Dedico esta nota ao condutor francano, que, dia desses dirigia a 10 por hora em pista esquerda de avenida, como se fosse o rei do mundo. Após dois quarteirões, dei-lhe sinal de luz, e ele, braço para fora, brindou-me com o dedo médio da mão. Pensei em devolver, mas não é isso que ensinei a meus filhos. Tenho pena dos dele, se é que os tem).

Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br