Em 2009, quando o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou a anunciar medidas para estimular o consumo e ‘livrar’ o País do tsunami econômico que até hoje deixa economias (até então sólidas) em situação delicada, o Comércio, em diversos editorais, apontava para o perigo da ‘bolha’ iniciada naquele momento estourar mais adiante, pois o crescente consumo não encontraria um escape nos anos seguintes. Para simplificar: a inadimplência iria crescer e o governo não encontraria outra saída para segurar uma crise que, se não veio na época, começa a rondar o Brasil nos dias de hoje.
Desde o ano passado, a equipe econômica do governo vem utilizando artifícios para fechar o caixa e manter os números em alta. Chegou-se ao cúmulo, nos últimos dias de dezembro de 2012, de transferir para a Caixa Econômica Federal (CEF) ativos do Tesouro Nacional para aumentar o superávit. Hoje, o banco estatal é dono até de frigorífico e laticínio. O baixo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) — que mede o crescimento da economia brasileira — vem se repetindo, mês a mês e, ao contrário das expectativas do governo federal, continua despencando, projetando agora um crescimento abaixo de 3% para o final deste ano. O que, convenhamos, é muito pouco.
Com a inflação crescendo e tornando-se um fantasma para as pretensões da presidente Dilma Rousseff, que buscará a reeleição no próximo ano, o Planalto procura saídas para esta ameaça constante. Como o estímulo ao consumo mostra-se esgotado e não há mais intenção de ampliar as desonerações — redução do pagamento de tributos —, que também já se mostram inócuas, o Banco Central (BC) retomou as elevações da taxa básica de juros (Selic) —volta a bater nos 8% ao ano. Agora, o BC busca influir no câmbio. A sua primeira tentativa depois de muito tempo não apresentou resultado prático.
Após o dólar escalar o patamar de R$ 2 reais para perto de R$ 2,15 reais durante o mês de maio, a autoridade monetária fez na sexta-feira, último dia de maio, um leilão de swap cambial tradicional (equivalente à venda de dólares no mercado futuro). Assim, o dólar desacelerou momentaneamente os ganhos ante o real no mercado, mas ainda fechou em alta de 1,75%, cotado a R$ 2,147. Este é o maior patamar de fechamento desde 5 de maio de 2009, quando a moeda norte-americana fechou cotada a R$ 2,148. Nunca é demais lembrar que vivíamos o tsunami financeiro global — para o então presidente Lula não passava de uma ‘marolinha’. A marolinha encorpou, cresceu e hoje ameaça a economia brasileira.
Como se pode ver quase tudo já foi tentado. Mas pode haver uma saída: se o Planalto investisse efetivamente no incremento da produção e no estímulo à competitividade da indústria nacional, com certeza chegaria a resultados mais positivos do que os verificados com os últimos pacotes. Ao que parece, o governo pretende combater o dragão inflacionário a tapas, quando mesmo um só tiro seria insuficiente: agora já é necessária uma carga de várias metralhadoras para trazer de volta a estabilidade financeira que o brasileiro vem experimentando nas últimas duas décadas.
Hoje, quem já está sentindo no bolso estas medidas sem efeito é o consumidor. A pouco mais de um ano das eleições gerais, o governo caminha no fio da navalha, confiando apenas na força dos programas sociais para eleger Dilma Rousseff. E isso já mostra não ser suficiente, quando a emergente classe média começa a sentir na pele os efeitos da curva inflacionária ascendente.