No comando do grupo gestor que assumiu a administração da Santa Casa de Franca, o prefeito Alexandre Ferreira (PSDB) anunciou, para quem quisesse ouvir, que a caixa preta do hospital (onde se escondiam vencimentos de médicos, gastos cotidianos e pagamentos realizados) seria, enfim, aberta. Pelo menos na última década — ou um pouco mais do que isso — o Comércio vinha cobrando a providência, uma vez que notícias de que a instituição estaria pagando salários milionários a alguns de seus profissionais incomodavam a população — e, é bom dizer, nunca foram negadas.
Por isso, ao dar explicações sobre a ação do comitê gestor na Santa Casa, que conseguiu reduzir a dívida do hospital, o prefeito acabou falando muito e não dizendo nada, uma vez que várias ações podem ter sido implantadas sem que fosse realmente desvendado os fatos que levaram o hospital a um rombo tão grande. Afinal, o prefeito Alexandre Ferreira não disse se existem ou não super-salários. Caso existam, qual o valor que a Santa Casa despende por mês? O que a comunidade francana, que vinha acompanhando a evolução da dívida, quer saber é simples. Não se exigem nomes, mas apenas a confirmação (ou não) das denúncias que há anos vêm sendo aventadas.
Caso não haja respostas para um pleito legítimo, acredita-se que algo muito grave possa estar acontecendo. Do contrário, por que o segredo? A população merece uma resposta. Afinal, o dinheiro que Estado e Município destinam à Santa Casa para resolver o rombo milionário sai dos tributos que todos pagam. O que não se pode mais é protelar uma satisfação à população. A continuação deste silêncio é incompreensível. Uma atitude que move muitos políticos, a promessa em muitos casos deixa de ser cumprida e fica tudo por isso mesmo. Mas o não cumprimento também pode levar à desmoralização. E o prefeito Alexandre Ferreira corre este risco ao não mostrar, de forma clara e precisa os vertedouros pelos quais escoava o dinheiro do hospital filantrópico.
Culpar apenas a tabela do Sistema Único de Saúde (SUS) — que remunera os procedimentos realizados pelos hospitais públicos e que não é reajustada há mais de 10 anos — não é correto. Além disso, creditar a melhora das finanças aos funcionários demitidos também se torna inócuo. É preciso que o prefeito mostre exatamente quais foram os erros de gestão (como ele mesmo levantou) que levaram a instituição às portas do fechamento. Ele ainda deve esclarecer sem demora de que forma vai agir daqui para frente e se os responsáveis pela má-gestão serão responsabilizados. Mas, antes de tudo, deve responder: há mesmo super-salários na Santa Casa? Em caso positivo, quantas pessoas são beneficiadas? Qual o salário de cada uma? Não se exige em momento algum que Alexandre Ferreira aponte os beneficiários. Mas que, caso existam, sejam impedidos de colocar no bolso dinheiro que deveria estar sendo mais bem empregado no tratamento médico da população francana que depende da Saúde Pública, para que não se corra mais uma vez o risco de ver a história se repetir um pouco mais adiante.