Em 1971, o Clube de Roma, que estuda consequências da expansão econômica mundial, previu que o crescimento humano seria limitado pelo esgotamento de minerais importantes e fontes de energia não renováveis. O cobre, por exemplo. Usando recurso sofisticado na época - computadores! - levantaram a taxa de consumo de cobre nos 20 anos anteriores e projetaram 20 anos futuros, contemplando taxas de crescimento econômico esperadas. Conclusão: 30 anos depois, por volta de 2000, as reservas estariam esgotadas!
O que o Clube não previu foi que no final dos anos 90 o sistema de cabeamento telefônico com fios de cobre seria substituído por fibras óticas, de vidro, muitíssimo mais eficientes. A matéria prima das fibras, o silício, - grosseiramente dizendo, areia, um dos elementos mais abundantes na natureza. O consumo caiu drasticamente. O cobre não acabou. Os precisos cálculos deixaram de fora a engenhosidade do homem, que cria novas soluções para velhos problemas.
Mesmo com milhares de técnicos, computadores, satélites, modelos matemáticos e anos acumulados de conhecimento, falhamos miseravelmente em nossas previsões, pois as interações que envolvem os sistemas econômicos, ambientais e sociais são por demais complexas, não existem fórmulas prontas. Não existem certezas, apenas dados que os homens juntam para tentar tirar conclusões. Erros e acertos, é assim que funciona o mundo da ciência, que não é exato, lida com probabilidades e na maior parte das vezes é surpreendido por um acontecimento novo, uma reação inesperada, uma descoberta. É no gênio que tira as conclusões da análise dos dados frios que reside a esperança. Onde um medíocre nada vê, gênio pode ver o futuro.
Lembrei-me dessa história ao ler matéria recente sobre avanços tecnológicos nas operações de prospecção e perfuração que permitiram a exploração mais profunda de camadas rochosas que contêm o gás de xisto nos EUA. O resultado foi a descoberta de reservas imensas de gás natural, que podem mudar a balança global da geração de energia. O gás natural pode substituir o gás liquefeito de petróleo (GLP), o carvão nas usinas elétricas, a gasolina e o diesel. Nos EUA, calcula-se que se 500 mil caminhões mudarem para gás natural, o consumo de petróleo cairá quase meio milhão de barris por dia, ou 5% das importações de petróleo. O gás de xisto é só um exemplo de avanço tecnológico que pode mudar a história. Um avanço que até recentemente desconhecíamos.
Por causa de gênios, tenho esperança no futuro. Mas há gênios e gênios. Um gênio do marketing político, por exemplo, pega a informação sobre o gás de xisto e transforma numa ferramenta política. Grita aos quatro cantos que o paraíso nos espera por conta de descoberta fabulosa que trará, num futuro incerto, riqueza e prosperidade. Cria esperanças, ganha votos. Quando esse movimento tem bases sólidas e confiáveis, abre-se uma avenida para o progresso. Mas quando é apenas oportunismo político, cria-se a falsa esperança numa solução incerta, inviável ou, simplesmente, inexistente. E quando o resultado for cobrado, os milagreiros já estarão em outra...
E aí, a pulga atrás da orelha começa a se mexer... E o pré-sal? Enquanto estamos discutindo como repartir o dinheiro que ainda não existe, os norte-americanos estão trabalhando para mudar a matriz energética mundial, atropelando o petróleo. E eles não costumam brincar em serviço. O pré-sal resistirá ao pós-xisto? Ou serão apenas promessas?
Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista