Há muitas maneiras de se relacionar. Paul Tournier escreveu livro sobre ‘personagem e pessoa’, afirmando que o ser humano tem duas realidades que se mesclam, mase são diferentes e não se separam. Uma é a história de vida (registro de nascimento, álbum de família, testemunhos de fatos acontecidos). Enquanto vive sua história, o humano constroi a outra realidade, sua lenda-pessoa, seu personagem, a maneira pela qual quer ser visto e reconhecido pela sociedade.
Pessoa é algo densamente misterioso. É complexo energético, dinâmico, consciente e inconsciente que peregrina, sempre envolto num personagem. Personagem é uma abertura de visão para a coisa densamente misteriosa - a pessoa. Concluímos, então, não existir chance de que nos conhecemos completamente, e nem à pessoa com quem casamos, ou relacionamos. É erro afirmar que conhecemos o outro. O personagem dele vai se monstrando, aos poucos, quem realmente é.
A escolha inicia-se pelo personagem que entremostra a pessoa. No casamento, os ‘personagens’ vão dando espaço para que as ‘pessoas’ se revelem. Pergunta difícil de ser respondida, mas comum nos casamentos, foi formulada pelo filósofo Martin Buber: ‘por que pessoas de excelente qualidade humana não conseguem dialogar?’ Em razão disso, escreveu Eu e Tu. Nele, criou três palavras-princípios: ‘Eu-Isso’ (referindo-se às relações objetais, relações humanas com as coisas), ‘Eu-Tu’ (referindo-se às relações pessoais) e ‘Eu e Tu eterno’ (relações humanas com o absoluto).
O problema das nossas relações é que ficamos na primeira dimensão: ‘eu-isso’. Tratamos o outro como objeto, e não como pessoa. A relação ‘eu-isso’ deve caminhar para ‘eu-tu’. É normal o início em ‘eu-isso’, mas deve atingir o ‘eu-tu’, senão, não revela a pessoa. Para Buber, ‘o ‘isso’ é uma pequena palavra que pode ser dita com uma parte do meu ser, e o ‘tu’ é uma palavra menor, mas que só posso dizer com o meu ser inteiro; não há meio tu, ou é tu ou é coisa’. Jamais conheceremos o outro na totalidade, e isso é saudável. Fosse possível, o humano ‘morreria’, deixaria de ter expectativas.
A dinâmica das angústias nos relacionamentos é saudável. Buscamos alguém que nos diga que nos ama, mas se essa pessoa for capaz de dizer ‘porque’ nos ama, podemos ter certeza que não existe amor, porque amor não é dizível. Poetisa inglesa do século XIX, Elizabeth Browning escreveu sobre o medo que tinha do marido dizer-lhe que a amava, e dela dizer-lhe que o amava. ‘Se tu chegares um dia a amar-me, que não seja por outro motivo senão o próprio amor, não digas, amo-te por teu sorriso, tua figura, teu jeito de falar gentil, pelo modo de pensar que combina com o meu, e que nos trouxe a essa enorme sensação de agradável prazer, pois essas coisas em si mesmas, ó bem amado, podem ser mudadas, e o amor, esse frágil tecido, poderia facilmente se destecer’. O casamento, o relacionamento, é, portanto, meio de formação da identidade humana. Saber que casamos ou nos relacionamos com um personagem e que essa relação muitas vezes está presa no eu-isso, ‘ajuda’ entender alguns conflitos.
Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário