20 de março de 2026

Quinquilharias


| Tempo de leitura: 5 min

Certa vez filho de amiga lhe perguntou: ‘mãe, o que é ser rico?’

Pega de surpresa, ela explicou: ‘Ser rico é assim: você vai a uma cidade cheia de recursos. Passa por casa deslumbrante, gosta dela, compra. Vê prédio de apartamentos bonitos, entra e adquire dois de uma só vez. Aí você passa por concessionária de carros. Compra caminhonete, Mercedes conversível, Hyundai, moto, bicicleta de alumínio – sem precisar, só porque gostou. Vai ao shopping: compra todas as roupas, bolsas, sapatos que lhe chamaram atenção. Repete as compras em todas as cidades por onde vai passando: Ribeirão, São Paulo, Rio. Dá-lhe vontade de viajar para longe. Entra na agência e compra passagens para todos os lugares que tem curiosidade em conhecer.’ Ela se empolgou – gastar dinheiro é bom, imaginário é fácil, fácil – e desfiava as possibilidades de esbanjamento, quando ele a interrompeu: ‘Chega, mãe! Não vejo vantagem alguma em ser rico: você só pode morar em uma casa, só consegue andar em um carro, só pode visitar um lugar por vez, só pode usar uma roupa de cada vez.’

Criança, o moleque deu lição que ainda hoje não aprendi porque, mesmo longe de ser rica ou esbanjadora, juntei coisa. Confesso, juntei. Meus filhos fizeram-me dar-lhes palavra de honra de que quando pensar em morrer eu os avisarei pelo menos dois anos antes... Juntei revistas, jornais, retratos, livros, discos, sapatos, bolsas, roupas, casacos, roupas de festas, bijuterias, retalhos, panos, enfeites, xícaras, discos, pratinhos, toalhinhas de crochê e etc. Milhões de etc... Tenho dó de jogar fora remédios pela metade – alguns já fora do prazo de validade, botões de roupa, alfinetes, bilhetes dos filhos – de amor e de dor. Achei dias desses, dentro de livro que não abro há décadas, amarfanhado quarto de folha de papel almaço, com a letra miúda do caçula então recém-alfabetizado, já tentando me sensibilizar com charme e chantagem: ‘eo cei: vosse naum gos mai demin. Responda cim ou nao’. Até chorei. Vinte e tantos anos antes tinha lhe passado um sabão daqueles por conta de travessura e ele, condoído e envergonhado, sacou que meu humor não estava lá essas coisas e veio se encostando. E encostada de caçula tem esse nível... Como terei coragem de jogar fora documento desses? Agora, pior, tem os bilhetes das novas gerações: que avó ousa desprezar cartão de natal que neto faz? Ou o libreto da apresentação de balé de quando a primeira neta estreou no Municipal, no papel de pirilampo? Quem tem coragem de jogar no lixo latinhas vazias de charutos, balas de goma, tão úteis para guardar grampos de cabelo, alfinetes desmazelo, alfinetes de cabeça – nas gavetas?

Folheio a dúzia de mini-livrinhos, daqueles que todo mundo guarda no criado ao lado da cama. Há dois volumes do Minutos de Sabedoria, por exemplo. E vão ficar lá. Me diz: quem tem intrepidez, ousadia, atrevimento de botar fora o segundo pequeno volume, só porque já tem o primeiro? É pequeno, não ocupa espaço e está ali porque alguém o presenteou com eles. O que custa manter os dois, se são duas distintas e queridas referências? Junto com as icônicas edições, os mini-dicionários que auxiliam na execução das palavras cruzadas com as quais a gente se diverte nas noites insones. Viu? Nunca fui rica, só juntei coisas.

Hoje estou em busca de coragem para iniciar ciclo de minimalismo extremo na minha circunstância. Antes queria tudo e pensava que teria chegado perto de conquistar o objetivo. Hoje sei que de meu só tenho coisas intangíveis como minhas lembranças, minhas memórias e minhas palavras. Nenhum objeto, mas coisas que deixaram saudades, perpetuaram um momento e que valeram a pena, só por isso.

DISCREPÂNCIA
A publicação, em site social, de depoimento comovente sobre miséria em algum lugar da África, chamou-me a atenção. A pessoa diz ter ficado horrorizada com fotos publicadas em recente matéria, revelando a tragédia daqueles seres humanos. No entanto, já presenciei cena das mais estarrecedoras do depoente quando gritou e oprimiu serviçal doméstica que, num momento de inabilidade, entornou água nos seus pés principescos. Ao cair em si – pois deu-se conta da minha presença, acredito – pediu desculpas à moça que, humilhada, chorava baixinho. Caridade e compaixão começam em casa, os antigos diziam.

REFLEXÃO
‘A pergunta que não quer calar é: por que em países islâmicos, por exemplo, com alto índice de pobreza, não existe criminalidade endêmica? Será que tem a ver com medo da terrível punição corânica? Dirão os inteligentinhos que a causa da criminalidade é social. Hoje em dia, ‘causa social’ serve para tudo, como um dia foram os astros e noutro a vontade dos deuses. Não nego que existam componentes sociais de fome e sofrimento na causa do comportamento criminoso, mas ninguém mais leva em conta que a maioria que vira bandido porque não quer trabalhar todo dia (...). Ser bandido é, antes de tudo, um problema de caráter.’ (Luís Felipe Pondé)

FILME
Vem aí a terceira versão filmada do clássico literário O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald. Leonardo di Caprio no papel principal já desempenhado por Alan Ladd e Robert Redford em 1949 e 1974, respectivamente. As lindas moças, motivos de todos os problemas na trama, são Betty Field – a primeira; Mia Farrow, a segunda e, agora, Carey Mulligan. Ler o livro primeiro, depois ver o filme. Haja pipoca!

SURPRESA
O Poupatempo funciona! Você agenda o compromisso (pode ser pela internet) e recebe orientação sobre a documentação exigida. No dia e horários marcados, ao chegar com a papelada em mãos é bem recebido, passa por todas as etapas, nenhum figurão atravessa seu atendimento, os horários são respeitados. Atendentes educados e pacientes informam e esclarecem corretamente quaisquer dúvidas que surjam. Coisa de Primeiro Mundo!

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br