Em razão, principalmente, da certeza da impunidade e da leniência da Justiça — em todas as suas acepções —, a violência vem transformando o dia-a-dia dos brasileiros, não só tendo como motivador o tráfico de entorpecentes (cujos malefícios se intensificam e a repressão não encontra respaldo junto a grande parte das autoridades) ou a busca desenfreada pelo dinheiro e bens alheios. Somente neste ano, em levantamento feito até 5 de maio, 23 atropelamentos foram registrados no perímetro urbano de Franca. Várias são as causas, mas algumas vezes a imprudência e a negligência tornam-se o motivo principal de acidentes com mortes.
Chama a atenção o número de atropelamentos com mortes cujos motoristas fugiram. Num período de pouco mais de 30 dias, entre abril e maio, cinco pessoas foram mortas quando trafegavam em ruas ou rodovias de Franca sem serem socorridas pelo atropelador. Em pelo menos três deles, a polícia conseguiu levantar os nomes dos motoristas, indiciados por homicídio doloso e omissão de socorro. Na tarde de ontem, foi identificado o protagonista da última ocorrência, na manhã de domingo, quando um curtumeiro foi ferido mortalmente quando trafegava pela rodovia Cândido Portinari. O vídeo flagrando o ato, divulgado pela concessionária Autovias e publicado no Portal GCN, além de estarrecer também causou profunda revolta em quem o assistiu: o trabalhador, circulando em uma moto, foi atropelado e jogado ao longe sem que o motorista pelo menos demonstrasse intenção de parar. Ontem a polícia chegou ao atropelador, apreendendo o seu carro. Mas ele ainda não foi ouvido no inquérito aberto para apurar a sua responsabilidade.
O que mais indigna, nos casos registrados, é a frieza e falta de solidariedade dos autores dos acidentes. Nas cinco ocorrências citadas, houve até quem inicialmente mentisse a respeito, confessando a sua participação mais tarde ao ser interrogado pela polícia. A banalização da violência, infelizmente, vem tornando a vida humana mais descartável e cercada de insignificância. Caso houvesse mais rigor na penalização e rapidez da Justiça, dificilmente motoristas tentariam fugir de sua responsabilidade e procurariam, isso sim, pelo menos tentar socorrer suas vítimas.
As famílias do curtumeiro Carlos César Gonçalves, 50; do pintor Rogério Bonini Mendes, 32; da babá Natália Dias Almeida, 41; e da gerente Nayara Rocha, 24, ainda buscam explicações para a falta de solidariedade e de compaixão de seus algozes. Ainda há um desconhecido, de cerca de 40 anos, também atropelado e morto, cuja identidade não foi descoberta até agora. A do motorista causador de sua morte também não. Enquanto o Código Penal brasileiro não considerar motoristas imprudentes e irresponsáveis como o que realmente são — assassinos que transformam seus carros em armas mortais —, continuaremos noticiando estes fatos. É uma situação grave, onde pais e mães de família perdem a vida em troca da irresponsabilidade e insensibilidade alheias.