Em vez de buscar melhorias para os cursos de Medicina no País e providenciar uma remuneração condizente, o governo brasileiro anuncia a intenção de contratar médicos estrangeiros — pelo menos seis mil cubanos — para o atendimento em cidades do Interior brasileiro, onde há falta de profissionais embora exista uma demanda cada vez maior. Depois da polêmica que o anúncio causou, o Palácio do Planalto garante que não pretende contratar apenas médicos de Cuba, mas também de Portugal e Espanha, por exemplo. Mesmo assim, a atitude ainda causa controvérsias, uma vez que o problema em nosso País não é a falta de médicos mas sim a falta de atrativos com que o setor público lhes acena.
Os defensores da medida, como o ministro Aloizio Mercadante, da Educação, dizem que a contratação será ‘temporária’, pelo prazo máximo de três anos. Mercadante ainda garante que há uma ‘política estruturante’ para o aumento do número dos profissionais no Brasil. E promete a abertura de novas escolas de Medicina em regiões onde hoje há carência de médicos e estrutura para recebê-los. Já o ministro Alexandre Padilha, da Saúde, afirma que a proposta não pode ser vista como tabu, uma vez que a prática é comum em países como Inglaterra, Estados Unidos e Canadá. Nestes, afirma, o índice de profissionais com formação no exterior chega a 37%, 25% e 22%, respectivamente. No Brasil, a taxa é de 1,7%.
Porém, deve-se levar em conta — principalmente quanto aos médicos formados em Cuba — a discrepância do ensino de Medicina naquele país em comparação com o Brasil. Há décadas que a ilha comandada pelos irmãos Castro deixou de ostentar índices de excelência no setor. A partir da derrocada da União Soviética (que financiava o regime castrista), há mais de 20 anos, o sistema de ensino da ilha caribenha foi sendo sucateado e, de lá para cá, não recebeu qualquer tipo de investimento. O que pode ter sido razoavelmente bom tornou-se incrivelmente ruim e deficiente.
Para um médico formado no Exterior receber autorização para trabalhar no Brasil, é necessário que passe por um teste, chamado revalidação de diploma. No ano passado, 182 profissionais que estudaram em faculdades cubanas (muitos deles brasileiros) se inscreveram para revalidar seus diplomas e apenas 20 foram aprovados. Em 2011, dos 140 inscritos, quinze passaram. O total de médicos com diplomas estrangeiros inscritos para a revalidação em 2012 foi de 884, dos quais apenas 77 (menos de 10%) foram autorizados a atuar no País. Ou seja, um índice baixo que derruba qualquer argumento a favor.
Melhor seria se o governo investisse tempo e dinheiro na valorização profissional para que os recém-formados tenham disposição para trabalhar no Interior do País, ao contrário do que ocorre agora. Sem condições de trabalho e remuneração à altura, a saúde pública brasileira não consegue seduzir profissionais capazes de abandonar grandes centos e ir aos nossos rincões cuidar da população. A contratação de estrangeiros, em razão dos resultados dos cursos de revalidação, a princípio mostra-se uma solução equivocada e que não será benéfica para a saúde dos brasileiros.