Há cerca de uma década, o jornal Comércio da Franca cobrava a abertura da chamada caixa-preta da Santa Casa de Franca. Desde aquela época as negativas davam mostras de que algo muito sério vinha ocorrendo no estabelecimento. E tudo o que se acreditava acaba confirmado agora, com as informações do comitê gestor criado para administrar o único hospital público de Franca. De acordo com o prefeito Alexandre Ferreira (PSDB), os primeiros dados demonstram que o descontrole nos gastos não é apenas decorrente da falta de reajuste da tabela do SUS (Sistema Único de Saúde), que há dez anos continua pagando os mesmos valores aos estabelecimentos conveniados, mas também deve-se ao dispêndio de valores com serviços e setores totalmente dispensáveis para o funcionamento da Santa Casa.
De acordo com Alexandre Ferreira, o hospital possuía um setor de marketing, eventos e imprensa que empregava nove pessoas, algumas com salário de R$ 5,5 mil. Também faziam parte da folha de pagamento dois arquitetos e um engenheiro e o gasto com pedreiros girava em torno de R$ 32 mil por mês. São dois exemplos que mostram o absurdo da situação pré-falimentar da instituição. Porém, acredita-se que muita coisa errada ainda há de aparecer.
Mesmo antes da abertura total da caixa preta, os excessos identificados começaram a ser cortados e funcionários dispensáveis demitidos. A medida de contenção, somada ao aporte financeiro feito pelo Estado e Prefeitura, contribuiu para o estancamento da dívida. Depois de muito tempo, o hospital fechou um mês sem novos credores. O déficit mensal da Santa Casa era estimado em cerca de R$ 2,5 milhões, mas a situação começou a mudar em abril com a implantação do sistema de cogestão.
Após aceitar os termos propostos pelo governo estadual — que condicionou a ajuda financeira à abertura da administração e de dados mantidos em segredo —, o hospital passou a receber mais recursos do Estado e da Prefeitura. A ajuda reforçou o caixa em torno de R$ 2,1 milhões por mês. Ao mesmo tempo, os gastos passaram a ser controlados. Com isso, o desequilíbrio financeiro foi contido, demonstrando que faltava seriedade dos administradores com a gestão do estabelecimento de saúde.
Ao não permitir, por anos a fio, que se conhecesse a atual realidade da Santa Casa de Franca, suas sucessivas diretorias já davam mostras de que alguma coisa estava errada. E o relatório preliminar demonstra que o hospital vinha sendo gerenciado da mesma forma que muitas empresas e autarquias governamentais, confundindo-se o público com o privado. Embora o SUS tenha parcela de culpa na situação que vinha se agravando nos últimos tempos — e outros hospitais filantrópicos no País engrossam o coro por reajuste na tabela que remunera sos procedimentos prestados à grande parcela da população que depende do atendimento público de saúde —, percebe-se que os administradores acharam por bem inflar a folha de pagamento de salários a aplicar onde realmente é necessário.
A Santa Casa de Franca agora, aparentemente começa a encontrar seu caminho, com a austeridade nos gastos (e o providencial auxílio do governo do Estado), para alívio da população de Franca e região que depende dos procedimentos ali realizados, emergenciais ou não. Agora, espera-se que os responsáveis por este descontrole (e ainda há muita coisa a ser revelada) sejam devidamente responsabilizados.