Entramos no avião, sentamo-nos e aí surgiu a moça grávida que pediu licença para passar e se acomodar na poltrona ao lado da janela
Tive ímpetos de oferecer-lhe o corredor ou, pelo menos, o assento central - o espaço entre as fileiras é mínimo. Tive receio, porém. A falta de educação e o encapsulamento das pessoas têm sido traumáticos nestes tempos modernos de autismo social. Levantei-me, ela passou, agradeceu, se enterrou na cadeira. Pôs fone de ouvido. Caladinha, peguei a revista de bordo, abri-a e compartilhei o silêncio: era vôo curto, nem uma hora depois e já estaríamos aterrissando. Mas o avião não decolou e pelo visto demoraria para fazê-lo. A moça se mexeu, eu me mexi, olhei por cima dela o que acontecia lá fora, comentei alguma coisa e ela respondeu. (Ela respondeu! surpreendi-me.). Aproveitei a deixa, falei da lua cheia lá fora, a moça riu com alguma timidez e logo estávamos conversando.
Viajava a trabalho, naquele final de expediente estava ansiosa por chegar em casa. Cansada? perguntei. Não, disse, mas queria se pôr à vontade, percebi. Ela poderia ser minha filha e eu, distante da minha, e carente deste tipo de proximidade, não hesitei em provocar o prolongamento da curta convivência. Logo ela estava contando que sua família de origem é de Santa Catarina, que mudou por causa do trabalho, que fica todo dia um pouco mais insegura à medida em que se aproxima o parto, porque não consegue imaginar como será quando ela e o marido tiverem que viajar ao mesmo tempo – ou atender algum compromisso de última hora – e não puderem contar com qualquer familiar para dar suporte, por perto. Brinquei com ela: posso assumir. Moro em Franca, terei prazer em ajudá-la, como retribuição ao apoio que minha filha e minha irmã receberam, pois que também enfrentaram a mesma situação lá longe, onde moram. Desconfio que ela aceitou.
Sentindo-se acolhida, confidenciou-me – o tempo todo passando a mão sobre a barriga. Ícaro, o bebê que espera, é muito especial. Diante da frustração de não conseguir engravidar, procurou especialistas e eles davam terrível diagnóstico: ela tinha miomas, deveria fazer cirurgia para retirá-los, mas o risco era grande pois poderia ter hemorragia e aí a conduta seria a temida histerectomia. Que o útero se apresentava três vezes maior que o normal – no caso de milagrosa gravidez, não haveria espaço para o bebê crescer. Mulheres determinadas não desistem, mantêm esperança e, no caso dela, fé de que haveria de conseguir realizar o sonho de ser mãe. Procurou se informar através de leituras – reais e virtuais – e descobriu o chá, que começou a tomar em março de 2012. Em outubro, nova consulta quase a desesperançou: não tem cura, os médicos reafirmaram. Em novembro ela engravidou: os miomas diminuíram ‘e deram espaço para a Vida’, ela relata. (Diz que adora contar essa história pois conhece muitas mulheres com problemas uterinos como miomas, cistos, cólicas a quem o chá também ajuda.). Ela sabe o que diz: inclusive aponta link, com a reportagem feita sobre o chá de uxi-amarelo e unha-de-gato – plantas da nossa rica fauna.
A viagem terminou depois dos trinta e cinco minutos de praxe, mais o tempo de espera na cabeceira da pista – mas as informações complementares chegaram através de e-mail que me escreveu porque lhe disse que eu gostaria de contar tal possibilidade às cláudias, rejanes, tassys, cristinas – conhecidas – e tantas outras desconhecidas cujo sonho é gerar um filho, porque gerar um filho é a metade da glória, alegria e sentido da vida de muitas mulheres. A outra metade é vê-los crescer e se tornarem humanos, por nossa atuação e competência.
1
‘As mães solteiras que têm direito a uma pensão judicial devem ser capazes de alguma outra forma de trabalho.’ (Al Capp, cartunista, criador do hilário e ingênuo Ferdinando)
2
‘Na vida de um garoto poucas infelicidades podem provocar consequências mais desastrosas do que ele ter uma mãe permissiva.’ (W. Somerset Maugham, autor de O Fio da Navalha e Servidão Humana, dois livros de cabeceira.)
3
‘Depois de algum tempo, todas as mulheres ficam iguais às suas mães – e esta é a tragédia delas. Os homens, não – e esta é a tragédia deles.’ (Oscar Wilde, autor de O retrato de Dorian Gray)
4
‘A mãe é o pior inimigo de um homem.’ (Ziraldo, de O menino maluquinho)
5
‘Em princípio, não há nada que as mães desejem mais para os filhos do que vê-los casados, mas nunca aprovam as mulheres que eles escolhem.’ (Raymond Radiguet, francês, autor de Le Diable au Corps, eternizado em tela por Modigliani)
6
‘Antes de sermos pais e mães, somos seres humanos, passíveis de falhas e erros. Então, a única coisa que podemos aconselhar aos nossos filhos, através de experiência já vivenciada, é como não repetirem os nossos erros.’ (Cláudia Belucci)
7
‘Somos todas mães adotivas – geradoras ou postiças. A verdade é que a mãe biológica dos nossos filhos é a vida.’ (Paloma Muniz)
LINK
A quem interessar possa, o link da reportagem sobre o chá de uxi-amarelo e unha-de-gato é http://grep.globo.com/Globoreporter/0,19125,VGC0-2703-3200-1-49326,00.html
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br