08 de julho de 2026

Feliz na (a)diversidade


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Vivemos um momento onde a manifestação do pensamento, garantida pela Constituição Federal, vem se tornando, cada vez mais, foco de desentendimentos. Manifestar o pensamento é sinônimo da liberdade de expressão que todo ser humano deve valorizar. O que é ser politicamente correto? Isso é possível ou é uma utopia ou tirania?

Para Edward Forster, ‘o politicamente correto é uma tirania com boas maneiras’. A frase é impactante. Concluímos que ser politicamente correto é ser tirano? Acrescente a essa frase à do Cardeal de Richelieu, ‘Dai-me seis linhas escritas pela mão do homem mais honrado, e acharei nelas algum motivo para enforcá-lo’. Depois de falar ou escrever, prepare-se para ser compreendido ou incompreendido, amado ou odiado etc.

Participo de um grupo de estudos de Psicanálise e Direito. Em nossa última reunião, dentre outros assuntos, acabei por trazer a polêmica atual entre homossexuais e religiosos. Foi extremamente produtivo. Posicionamentos firmes, contrários e compreensíveis, foram apresentados pelo grupo. Para alguns o pastor Marcos Feliciano não poderia estar presidente da Comissão de Direitos Humanos. Para outros, sim, pois tem o direito, embora a posição tenha sido minoritária. Comecei a me questionar sobre ética e política.

Para Macintyre, ‘o que constitui o bem para o homem é uma vida humana completa, vivida da melhor forma possível, e o exercício das virtudes é parte necessária e fundamental de tal vida, e não um mero exercício preparatório para garantir tal vida”. Para Morrall,’o caminho da salvação está no treinamento do intelecto prático, mediante a experiência adquirida e o hábito de escolher o curso correto de ação em cada caso’.

Sabemos que, a política representa a atualização ética do indivíduo, pois só na comunidade é o homem completo e o bem se realiza. Para Bittar, ‘A comunidade visa ao alcance de um modo de vida racional e virtuoso a todos os membros da associação política. [...] uma vida feliz só se perfaz no meio social, na polis, comunidade autárquica, auto-suficiente, bastante por si própria, assentada sobre o governo da ordem e da razão, agrupamento conclusivo do processo evolutivo humano’. E.M. Forster observou que ‘se fosse preciso escolher entre trair o país e trair um amigo, esperava ter a coragem de trair o amigo. Na perspectiva aristotélica, qualquer pessoa capaz de formular tal diferença, não tem país, não tem polis; é um cidadão de lugar nenhum, exilado interno onde quer que viva. Do ponto de vista aristotélico, a sociedade política liberal moderna só pode surgir como um conjunto de cidadãos de lugar nenhum que se agruparam em troca de proteção comum. Possuem, na melhor das hipóteses, aquela forma inferior de amizade que se fundamenta na vantagem mútua’.

Todo debate envolvendo direitos humanos é salutar, já que a finalidade última é o bem comum, a felicidade dos cidadãos, felicidade que segundo Aristóteles só é alcançada na polis, na cidade, na comunidade. Para viver feliz é preciso aceitar o Felicianos e gays, os iguais e os diferentes, e experimentar a máxima de Periandro de Coríntio, ‘trata teu inimigo como se, dentro em breve, fosse teu amigo’, ou ame o inimigo como a ti mesmo ou como se fosse próximo. Lembre-se de que todo argumento permite um argumento contrário; logo, nas verdades ditas absolutas há espaços para parcelas de mentiras. Pense nisso e viva feliz cuidando da sua vida particular e comunitária. Será que somos capazes? A história mostra que não! Infelizmente.

Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário