A lentidão da Justiça e a falta de punição efetiva aos motoristas envolvidos em acidentes de trânsito colaboram para que muitos dirijam sem responsabilidade. Dois acidentes graves ocorridos nos últimos anos são um exemplo disso. Perto de completar três anos, a tragédia que matou a família de Karen Missias, 27, ainda segue sem esclarecimentos.
A colisão foi em 19 de junho de 2010, na rodovia que liga São Joaquim da Barra a Barretos. O produtor rural e ex-candidato a deputado federal Tirso Meirelles chocou a camionete que dirigia frontalmente com o Uno conduzido por Jandemir Missias, 47. No Uno estavam sua mulher e a filha mais nova do casal, de 12 anos. Os três morreram na hora. Tirso, que fazia o caminho contrário e havia acabado de sair de um aniversário em Guaíra, sofreu apenas ferimentos leves.
Ele foi denunciado pelo Ministério Público por homicídio culposo (sem intenção de matar), mas passados quase três anos ainda não foi julgado. Para Karen, a falta de resposta por parte da Justiça é angustiante. “Só tenho a lamentar. Esse acidente mudou completamente a minha vida. Tirou o que possuía de mais precioso e não sei o que houve.”
Karen diz que nunca foi procurada por Tirso. “Esperava um pedido de desculpas. Mas ele nunca me ligou, nem perguntou se precisava de ajuda.”
Para ela, a culpa do acidente foi de Tirso. “Ele que estava errado. Tirou a vida dos meus pais e da minha irmã, mas ainda está em liberdade. Não acho isso justo. Só quero que ele pague pelo que fez. Quero viver para ver a Justiça ser feita. Eu tenho fé.”
Além da ação penal, que aguarda julgamento, Tirso ainda responde a uma ação na qual Karen pede R$ 465 mil de indenização. “Ganhei em primeira instância. Mas ele recorreu e o caso está no tribunal. Até hoje, não recebi um centavo dele. Aliás, nem um telefonema.”
Tirso não quis comentar o caso, que corre em segredo de justiça. Seu advogado e ex-presidente da OAB no Estado de São Paulo, Flávio D’Urso, disse que Tirso é inocente e não teve culpa do acidente. Na Justiça, ele deve defender a tese de que no local da colisão, na época dos fatos, havia obra de recapeamento do acostamento que teria feito com que o Uno se descontrolasse.
QUATRO VÍTIMAS
Outro caso grave foi o atropelamento provocado pelo então estudante de agronomia Thiago Teruo Huratani. Em outubro de 2009, ele estava na cidade para o Caipirusp - evento desportivo organizado por alunos da USP. Na manhã dia 31, transitava com seu Celta pela Cândido Portinari, quando perdeu o controle e subiu em um barranco, atropelando cinco pessoas que esperavam um ônibus para Pedregulho. Quatro morreram e uma ficou gravemente ferida. Na ocasião, o estudante disse que cochilou ao volante.
O julgamento de Thiago ocorreu em 2012. Pelas quatro mortes, foi condenado a três anos de prestação de serviços comunitários e teve a CNH suspensa por 1,3 ano. Apesar da pena branda, Thiago recorreu e o processo aguarda julgamento pelo Tribunal de Justiça. Thiago também responde a pelo menos três ações indenizatórias movidas pelos parentes das vítimas. A reportagem tentou localizá-lo, mas não conseguiu encontrar seus contatos.