(Texto dedicado àqueles cuja educação considerava sagrado cumprimentar e/ou retribuir o cumprimento ao encontrar pessoas. Conhecidas ou desconhecidas.)
Recentemente, em São Paulo, o jantar comemorativo de 30 anos de Abrin, feira de brinquedos realizada pela Francal, reuniu medalhinhas e medalhões brasileiros. Estavam lá, entre as estrelas, Maurício de Souza e Mônica, a filha, que inspirou a criação da boneca homônima. Quando ele passou por mim, fomos apresentados. Levantei-me, cumprimentei o reconhecidíssimo autor, disse do meu orgulho e satisfação em apertar sua mão que desenhou Mônica, Cascão, Magali, Cebolinha e tantos outros que embalaram a infância dos meus filhos.
Ele me abraçou, me beijou no rosto, piscou miúdo, disse que o prazer e a satisfação eram dele. Que estava emocionado. Imagine só, um escritor de fama internacional emocionado com minha homenagem. Logo depois, a amiga anfitriã apontou-me a Mônica, de carne e osso. Disse que gostaria de conhecê-la. Minha amiga foi até ela, cochichou que uma fã queria abraçá-la, ela – na hora – se levantou e disse: ‘Vamos até lá!’ E veio andando, passando por entre mesas e cadeiras, só para me conhecer, como se fosse pessoa comum e eu, a rainha de Sabá.
Recentemente, em Franca, estava fazendo ginástica – obrigada, porque odeio exercícios físicos – suando em bicas, falando mais que o cotovelo para o tempo passar, quando entra na academia e passa por mim, pela proprietária, pelo outro professor, sem olhar para os lados, a própria rainha de Sabá, acho. Não cumprimentou, não disse bom-dia, não deixou perceber que notava que havia cruzado com outras pessoas, com outros seres humanos. Pensei comigo: esse mundo tá cheio de autistas. Pensei em fazer Psiu! Psiu! Ô de casa! Bom-dia! Ói nóis aqui! Mas concluí ser infrutífero: educação é coisa de berço, coitada.
Pois não é que na mesma academia, entrou logo depois senhora conhecida que olhou dos lados, mas considerou invisíveis as demais pessoas. Passou empinadinha, sem mostrar reconhecer os demais seres, também criados à tal imagem e semelhança. Outra rainha de Sabá, pensei. Dizem, reconhecem-na como pessoa inteligente, pero muy deselegante: quando eu estava por sair, dei novamente de cara com ela, disse até-logo, ela me olhou com escárnio, reconheci. Movimentou a boca, chacoalhou a cabeça, revirou os olhos – sardônica e molemente: mostrou com isso que não estava nada a fim de responder o cumprimento, que tinha imenso desprazer com isso e que apenas por zombaria faria de conta que me respondia. Pensando bem, xingava? Dizia baixinho alguma coisa grosseira, rude? Mastigava chiclete? Não sei. Nem quero saber. Preferi me lembrar da delicadeza da Mônica do Maurício, muito mais importante, muito mais famosa, muito mais reconhecida, muito mais educada.
Quando devorei material disponível sobre Jane Austen, anotei na agenda uma de suas frases, tanto me chamou atenção. Achei-a engraçada, embora não tivesse, na hora, conexão com qualquer situação da minha vida. ‘Não quero que algumas pessoas sejam agradáveis comigo: assim me poupam o trabalho de ter que gostar delas.’
Definitivamente não será aplicada à Mônica de Souza, recém-chegada ao meu bem-querer; mas, com certeza, toda vez que encontrar a careteira e pernóstica senhora, saberei o que quero dela. Ou não quero.
LEIS?
Conhecidíssima dona de buffet estacionou em frente ao salão localizado em rua de imenso movimento, desceu, trancou o carro, entrou para dar rápido recado, tanto que nem fechou a porta do estabelecimento. Ouviu alarme, reconheceu, voltou correndo: deu com seu carro arrombado, vidro pulverizado. E cadê a bolsa? Sumira. Ela mesma, em outra ocasião, percebeu invasão no espaço que alugara, ainda sem móveis, apenas limpo para receber a decoração. Três moleques os invasores que, frustrados naquela tentativa, dirigiam-se às salas vizinhas. Surpreendidos pela polícia que chegou tão logo chamada, foram todos para a delegacia. Enquanto a senhora prestava depoimento, os rapazes foram soltos e liberados: saíram antes dela, aliás. Explicação: ‘não roubaram nada, não havia flagrante.’ Pode? Pode.
CRIATIVIDADE
Tradutores de títulos de filmes estrangeiros para o português mereceram destaque na mídia, tão criativos se mostraram. Ou têm se mostrado, que a prática vem d’antanho. The Cable Guy, com Jim Carey, que traduzido seria O cara do cabo, tornou-se O pentelho. O recente Beasts of The Southern Wild - mais ou menos Feras do sul selvagem, foi traduzido como Indomável sonhadora. Pode? Pode. Gracinhas: a conversão de Annie Hall para Noivo neurótico, noiva nervosa (pobre Woody Allen!); de Leap of Faith (Salto da Fé), para Fé demais não cheira bem. O melhor? Prá mim? Parenthood - algo como Paternidade - que passou a O tiro que não saiu pela culatra... Pode? Pode.
FRETENIR
Nunca imaginei. E se não fossem as palavras cruzadas jamais descobriria. Cruza letra daqui, cruza letra acolá, compus na revistinha a palavra fretenir. Fiquei conjugando, louca para adivinhar o significado. Na verdade, para descobrir, bastava olhar no número correspondente nas indicações, mas o verbo me pareceu mágico. Eu freteno: significaria que eu tremo de medo? Você fretena, poderia sugerir que você pratica algum ato obsceno? Que você fretenasse: seria desejo lícito ou ilícito? Ou se você fretenasse: eu o amaria mais por isso? Brinquei com a palavra até não resistir mais e procurá-la no dicionário. Desilusão. Fretenir significa o cantar próprio da cigarra. Verbo defectivo, não tem a primeira pessoa do presente indicativo. Eu não ‘freteno’, pois. Melhor arranjar emprego, que comprar guitarra.
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br