10 de julho de 2026

Leila se despede da Prefeitura: ‘Se me deixassem à vontade, eu ficaria’


| Tempo de leitura: 8 min
Leila Haddad Caleiro se emocionou durante a entrevista em sua casa, concedida dois dias após deixar a Secretaria Municipal de Educação

Impossível falar em educação em Franca sem relacionar o tema a Leila Haddad Caleiro. Alguns leitores deste texto, certamente, não haviam nascido quando ela começou a ensinar. Poucos devem ter frequentado o ambiente escolar mais do que ela. Leila dedicou 42 anos de sua vida ao ensino. Mesmo após se aposentar, há três anos, continuou trabalhando. É uma unanimidade na Prefeitura, respeitada e querida pelos amigos que a chamavam de “tia Leila”.

A experiência, o conhecimento e o respeito conduziram Leila ao posto de secretária municipal de Educação nos dois mandatos consecutivos de Sidnei Rocha (PSDB). Conviveu oito anos com o ex-prefeito de gênio forte. Conduziu o trabalho de capacitação e qualificação dos professores, contribuiu para o aumento de creches e de escolas.

O resultado obtido à frente da maior pasta da administração - são 2.372 funcionários, 74 escolas, 45 creches e um orçamento de R$ 176 milhões - fez com que Leila fosse a primeira convidada pelo então prefeito eleito Alexandre Ferreira (PSDB) para integrar o novo governo. Era começo de dezembro. Leila aceitou com entusiasmo.

Plenamente recuperada de uma cirurgia para implantação de uma prótese no quadril, em julho passado, estava animada e planejando ações para a melhoria do ensino. Não dava sinais de que pretendia parar. Na terça-feira, 16, deixou a Secretaria de Educação e enviou um comunicado a Alexandre Ferreira dizendo que estava abrindo mão do cargo. Viajou em seguida para o Rio de Janeiro, onde descansou alguns dias na casa do filho.

Leila retornou a Franca. Quarta-feira foi ao gabinete, sentou-se diante de Alexandre, agradeceu o convite para integrar o governo e avisou que não era mais secretária. O prefeito tentou demovê-la da ideia e pediu que reconsiderasse. A decisão era irrevogável. Ela não estava à vontade com cobranças do prefeito. Após quatro décadas, terminava o ciclo de Leila na Prefeitura.

Educada, alegou motivos de saúde e necessidade de descansar. Gentil como sempre, não quis polemizar na saída. Quem a conhece, sabe que está bem, sem problemas. Apenas o coração anda magoado. “É um vazio. Morreu a parte profissional em mim”. Acompanhe a despedida de tia Leila.

Comércio - Nos últimos 42 anos a senhora sempre repetiu a mesma rotina: saía de casa cedo para trabalhar na Prefeitura. Como será, agora, ao acordar e não ter mais a Secretaria de Educação como destino?
Leila Haddad -
Este é o grande problema. Não sei lhe falar até agora o que fazer. Cria um mal estar. Durante todo este tempo, fizemos este trabalho com muito carinho, amor e, agora, a gente para de repente e pensa: o que fazer? Vejo que tudo tem começo e tem fim. Teve o começo e estava na hora do final. Estava prolongando este final devido ao amor que a gente tem pela profissão. Ao mesmo tempo, vejo que tenho a minha família, tenho netos, marido, os amigos. É hora de curti-los, chegou o momento de descansar. A gente vai dar um jeito sim.

Comércio - A Prefeitura fazia parte de sua vida. Como a senhora define este momento de separação?
Leila -
Não é bom, não é bom. Não estou bem ainda. Garanto que vou ficar. É um vazio, é triste. Morreu a parte profissional em mim. Tenho preocupação quando digo isto, pois sou muito emotiva. Estou sofrida. Em qualquer momento, ficaria triste. Se tomasse a decisão mais adiante, o sentimento seria o mesmo. A decisão que tomei agora foi para encerrar mesmo. Teria que ter este final. Por outro lado, estou feliz porque deixo um legado de humildade, de dedicação.

Comércio - Em que momento exatamente a senhora pensou em deixar a Prefeitura após quatro décadas de trabalho?
Leila -
Quando o Alexandre [Ferreira, prefeito] ganhou, a gente trabalhou para ele, eu fiquei muito feliz com a vitória e fui levada pelo entusiasmo. Depois que você põe o pé no chão, percebe que já passou um tempo, que é preciso parar, mas que está sem coragem de largar. Quando tomei a decisão, fiquei firme nela. Não voltei atrás. Até me estranhei, mas tive uma ajuda de Deus. Ele está sinalizando: “está na hora de você parar.” Foi muito difícil por amar o que faço.

Comércio - A senhora sempre demonstrou entusiasmo pelo trabalho e se mostrava satisfeita com os resultados da Secretaria. Até pouco tempo, não havia indicativo de que estivesse pensando em pedir demissão. O ritmo intenso imposto pelo prefeito Alexandre influenciou sua decisão?
Leila -
Já queria parar, me dediquei demais, só que ele, realmente, está com todo pique, ele é jovem, né? Então, ele entrou com tudo e tem conseguido muita coisa. Ele vai ser um prefeito de sucesso. Agora, o Alexandre exige de todos os secretários. Ele exige, sim, os resultados muito rápidos. Eu já tenho idade, é melhor deixar para os jovens.

Comércio - Houve alguma cobrança do prefeito que tenha chateado a senhora?
Leila -
Ele exige, sim, firme, mas a gente deixa passar, tranquiliza e tudo bem. Não que seja este o motivo.

Comércio - A senhora trabalhou oito anos com Sidnei Rocha, um prefeito de gênio forte e cuja convivência não é fácil. Com o prefeito Alexandre foi uma relação de quatro meses. Qual a diferença?
Leila -
Foi pouco tempo para dizer do Alexandre, apesar de conhecê-lo. Participamos juntos de muitas ações enquanto ele foi secretário [de saúde]. Sidnei Rocha deixou saudades. Ele era exigente, mas uma pessoa equilibrada, um empreendedor, uma pessoa que me marcou muito. Mesmo com todas as exigências dele, tivemos um relacionamento muito bom. Ele era muito humano, de bom coração, de sentimento. Alexandre está, neste primeiro momento, querendo tomar conhecimento de toda a Prefeitura, motivo pelo qual está mais rápido. E por ser jovem também. Vai chegar um momento em que o carro vai começar a andar, ele vai ficar mais tranquilo. Não tenho mais o que dizer porque é pouco tempo.

Comércio - A senhora sempre fala com satisfação da equipe com que trabalhou na Educação. Vai sentir falta do contato diário?
Leila -
Com certeza. Tenho um carinho muito grande por todos [Leila se emociona e chora] e eles por mim. Então, não sei... este carinho todo de muito tempo, vai ser difícil, mas Deus vai me ajudar.

Comércio - A missão como secretária foi cumprida?
Leila -
Não é sensação, é a certeza do dever cumprido. Foram muitos anos e, ao longo deste tempo, fizemos um trabalho sério, competente, de amor e sempre levando em conta a meta de melhorar a educação e pensando em nossos 25 mil alunos. Eu sempre dizia isto em reuniões: ‘será que vamos deixar marcas boas nestas crianças?’ A nossa luta sempre foi para que os alunos sejam cidadãos honestos, éticos, participantes e mais felizes.

Comércio - Como a senhora analisa o elevado índice de violência nas escolas?
Leila -
Com muita tristeza. Por isto, focamos num projeto voltado para a paz. Os diretores e professores trabalham muito fortemente nisso, para que as crianças sejam multiplicadoras de boas ações e maneiras. Trabalhamos a formação da personalidade para que as crianças tenham amor e afeto.

Comércio - Uma grande reivindicação dos professores é a valorização da categoria. Como atendê-los?
Leila -
Isto a gente trabalhou muito forte. Sempre valorizei demais. Não tenho dúvidas que o professor tem que ganhar mais. O salário deveria ser melhor. Todos nós sabemos disto. O professor tem que se dedicar demais, ele é o mestre que está ali, a todo o momento, resolvendo todos os problemas, inclusive, os de família. A escola é para instruir e a família para educar, mas hoje, existe uma fusão dos dois. A escola também está fazendo a parte de educar. As duas grandes prioridades nossas foram o trabalho de capacitação e qualificação de todos que estão envolvidos no processo educativo. A qualidade do ensino melhorou com os bons projetos feitos pela nossa equipe da educação, que eu valorizo muito.

Comércio - Um problema crônico em Franca e que a senhora enfrentou é a falta de vagas em creches. O déficit antige mais de duas mil crianças. Como resolver essa questão?
Leila -
Hoje cerca de cinco mil crianças estão matriculadas em creches. A Secretaria de Educação está fazendo um levantamento para saber o número real das que aguardam uma vaga e os bairros com maior demanda. No primeiro semestre serão entregues seis creches, com atendimento a 140 crianças em média. No segundo a previsão é entregar mais quatro unidades. Com isso o problema vai ser amenizado, mas ainda há necessidade de mais creches.

Comércio - O que a senhora gostaria de ter feito e não foi possível?
Leila -
Temos metas e elas serão cumpridas. São muitos projetos novos. Uma coisa que há tempos queria ter feito e que vai sair no segundo semestre é o sistema municipal de educação. Hoje, quando se fala em abertura, autorização de funcionamento de escolas e homologação de planos e calendário escolar ainda dependemos da Diretoria de Ensino. Não somos autônomos. O sistema vai nos dar autonomia. O projeto está pronto.

Comércio - Gostaria de ter continuado na Secretaria?
Leila -
Tomei a decisão de parar e acabou, mas, se me deixassem à vontade, eu ficaria. Amo muito o que faço e estou sentida por ter que parar. Sentida, sim, de tristeza de largar o que amo, mas consciente que está na hora. Ao mesmo tempo, estou feliz pelo trabalho. Gostaria de agradecer toda a equipe [Leila volta a se emocionar] pela dedicação. Agradeço primeiro a Deus que me deu saúde, que me deu oportunidade de trabalhar 42 anos na Prefeitura e de ter feito alguma coisa em prol do outro. Foi muito bom trabalhar com todos os servidores, assessores, secretários municipais, com vocês jornalistas. Tenho o dom do amor, esta é uma coisa que Deus me deu. Amo muito as pessoas [Leila se emociona novamente].