20 de março de 2026

Lá e cá


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Estiveram na Disney e voltaram para o país de origem, do outro lado do oceano

Ao retirar bagagem, perceberam que uma das malas havia sido aberta, pois fechada com tira plástica, bem diferente de como foi despachada. Com estranheza e até certa animosidade, reclamaram na companhia que o cadeado sumira, que a mala fora violada, que estava toda remexida. O funcionário pediu desculpas, informou que em algum compartimento da mala, certamente eles encontrariam carta de explicação sobre o desagradável fato.

De fato: carta formal e bem redigida, encontrada no bolso interno, deixava claro que por questão de segurança, quando a mala passou por revista no raio ‘X’, antes do embarque, percebeu-se que transportava ‘material perigoso e danoso que punha em risco a integridade dos passageiros’. (Era a espada do Capitão Jack Sparrow ou Johnny Deep - que o filho de cinco anos insistira em comprar no parque.)

Pediam desculpas pelo inconveniente, não ressarciriam o valor do cadeado porque o procedimento fora feito em interesse do bem-estar coletivo etc, etc. Pegaram a bagagem, foram embora e deram razão ao pessoal da segurança. Ah! A espada foi recolocada na mala. Dias depois, receberam outra correspondência da companhia aérea - British Airways - pelo correio, justificando a violação, pedindo desculpas, solicitando o entendimento. Pediam excuses, apologies, forgiveness, sorries pela inconveniência, trinta vezes, num texto de quarenta e cinco palavras...

Recentemente voei de São Paulo para Ribeirão Preto, pela Passaredo. Etapa final de vôo mais longo, minha mala de mão de tamanho dentro dos conformes aéreos - aquela na qual a gente põe badulaques como bijuterias, leituras de bordo, essenciais produtos de beleza para disfarces e alquimias, roupa extra em caso de necessidade e Ipad - não podia subir comigo: a cabine do avião era pequena. Sim, despacharia. Sim, pagaria o extra. Tranquei, pus cadeado e entreguei a malinha. Ao retirar a bagagem, em Ribeirão Preto, percebi que o cadeado sumira e, no seu lugar, colocada tira de vedação de plástico. Sem rompê-la, bufando, dirigi-me ao balcão da companhia. Dois rapazes foram atenciosos, mas não disseram nada, não justificaram nada, não explicaram nada.

Deram-me papel e caneta para eu relatar o incidente, que até então se resumia na violação de bagagem. Fiz longa carta de reclamação, entreguei e me despedi deles ameaçando contar o episódio pra todo mundo. Ao chegar em casa e abrir a mala, constatei que a caixa com bijuterias havia desaparecido. Soltei fogo pelas ventas. Peças valiosas carrego sempre comigo, mas na caixinha de plástico estavam outras, de valor estimativo. Liguei, a moça ouviu, disse para eu esperar. Desisti de esperar. Escrevi e-mail para a Passaredo contando tudo outra vez, reproduzindo o relatório que ficou no balcão, com os rapazes.

Já faz quatro semanas. A Passaredo não deu a mínima. Os moços avisaram para esperar, mas não imaginei que fosse tanto. Grandes danos. O prejuízo material: as bijuterias não caíram de céu. A dor moral: sensação incômoda, misto de impotência, desvalor e descaso que me invadiu. Agora, a malograda expectativa do comportamento alheio foi responsável pela maior frustração. Também, onde já se viu comparar British Airways com Passaredo?

FILME
Tal - judia francesa - mora em Israel e Naim - palestino, em Gaza. Separam-nos, além dos territórios, a estupidez dos adultos que fazem parte dos dois povos que disputam política e ideologicamente entre si. Ela lança sobre o mar de Gaza garrafa com mensagem que vai parar nas mãos de Naim que, às escondidas, se interessa pelo desejo de paz e compreensão da jovem. Uma garrafa no mar de Gaza: produção franco-judia, direção de Thierry Binisti. Participação de Hiam Abass, de Lemon Tree.

VÍDEO
Acesse http://youtu.be/pfxB5ut-KTs para ver a última campanha da água Evian, intitulado Baby and Me - the new Evian film. A saga Evian teve início em 1787 em Evian-les Bains, quando o Marquês de Lessert curou pedras nos rins com o uso da água. Em 1935 tornou-se a ‘água para bebês’, tão limpa que prescindia de fervura para uso. Teve embalagens desenvolvidas e assinadas por Christian Lacroix (2007) e por Jean-Paul Gaultier (2008). A primeira campanha com a utilização de bebês, que caíram no gosto do consumidor, data de 1999. Dez anos depois bebês skatistas voltaram e deliciaram o mundo todo. Agora surgem os bebês dançarinos. Sensacional.

PECADOS...
...francanos: o maior, o trânsito. Violência. Má educação no cotidiano. Displicência. Atirar lixo nas ruas. Atirar lixo de jardim e entulho nos terrenos alheios, às escondidas. Atrasos. Furar filas. Ignorar ou desobedecer sinais de trânsito. Você-sabe-com-quem-está-falando? Mentir. Tentar subornar autoridades. Pedir ‘jeitinho’. Não desligar o celular, quando solicitado. Ficar com o troco miúdo - lojistas e compradores. Trocar o troco por balinha, chiclete, fósforo, ou outro treco qualquer. Achar objeto perdido e não procurar o dono. Pendurar contas. Não agradecer. Não cumprimentar a pessoa com quem cruza - em qualquer lugar. Pedir emprestado e não devolver. Apresentar como sua a ideia, piada, história, frase alheia - na cara do dono. Pedir ‘um minutinho!’ e demorar uma hora. Interromper atendimento alheio para (um minutinho!) pedir informação que lhe interessa. Estacionar o carro em vagas para idosos, gestantes e cadeirantes e sair com cara de paisagem. Dizer ‘Ah! Não resisto!’ e enfiar a mão no prato alheio e tirar lasquinha.

ZEDNEK PRACUCH
Grande perda para o setor de calçados, triste perda para leitores, admiradores e seguidores. Minha solidariedade aos familiares.

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br