08 de julho de 2026

Antigos problemas


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Outro daqueles artigos antigos que precisa ser lido e relido: “Quem assegurará que, daqui a cinquenta anos, ou mesmo no segundo centenário de nossa independência (2022), a situação da educação brasileira não seja ainda parecida com a de hoje? Mas, se tal acontecer, esperemos, para lisonjear a nossa vaidade e recompensar nosso esforço, que as nossas memórias e as nossas campanhas sejam lembradas... por outros sonhadores... (que) irão, como nós, agora, revolver a poeira de arquivos, livros, folhetos, e jornais...”

Quem disse foi Antônio Carneiro Leão, educador, professor e escritor brasileiro, imortal da Academia Brasileira de Letras, preocupado com a melhoria do ensino no Brasil. Recorri a ele após receber relato de uma professora de música de um colégio carioca de porte:

“Recebi de meu patrão a incumbência de dar aulas de Teatro e Artes Plásticas para a classe de alfabetização, além das de música. Diante de minha afirmação de que havia me formado em música, e não em teatro e artes plásticas, ouvi, dele: “A gente confia em você!”, “É simples, faz uma colagenzinha ou dramatizaçãozinha com eles, nada demais”. Tentei negociar, mas... Falei de minha falta de preparo para tal, mas parece que isso não importa. Não querem contratar outro, se há um que pode dar conta do serviço de três... Infelizmente, preciso do emprego, e sou obrigada a agir de forma um tanto desonesta com os profissionais de artes, com os alunos e pais (que, sinceramente, não estão nem aí) e comigo mesma... (...) estou correndo atrás de material que me dê uma base mínima e me deixe um pouco menos insegura. Fico imaginando até quando vou conseguir levar essa ‘mentira’... Consultei amigos advogados que me disseram que a resposta a estes casos não costuma ser favorável, ou seja, dificilmente teríamos razão perante a lei. Fica difícil...”.

Pois é. O relato da professora mostra uma das faces do descaso com que a questão da educação é tratada no Brasil.

Quando entrei no ginásio do Instituto de Educação ‘Ernesto Monte’, final dos anos 1960 em Bauru, fui da primeira turma que experimentou mudança. Era a introdução do conceito “pluricurricular”, tentativa de revolução na educação. Eu tinha aulas de marcenaria, economia doméstica (numa cozinha!), artes, Educação Sexual em salas mistas! Uma loucura naqueles anos de chumbo. Tão louca que acabou sucumbindo ao viés ideológico que tomou conta do País.

Ao longo do tempo e da discussão ideológica, aquela grade perdeu a força. Voltou um currículo tradicional, centrado nos conhecimentos técnicos e reforçado por uma sociedade cada vez mais competitiva, em que os temas “humanos” valem cada vez menos.

Depois de mais de 40 anos dessa visão torta, não é de se estranhar que os problemas brasileiros não sejam de matemática, história, geografia, física ou ciências. São das áreas humanas. São problemas éticos. Sociais. Comportamentais. A matemática não resolve, a economia não entende e a ciência não explica.

E repentinamente descobrimos que os alunos estão saindo das escolas formados pela metade, se tanto. Sem qualquer preparo para as “coisas da vida”, mas capazes de recitar o “pi” ao contrário... Pois é.

Sorte da professora de música do início deste texto. A visão curta dos dirigentes do tal colégio carioca a obrigou a estudar, a ampliar seus horizontes, a aprender sobre temas que ela desconhecia. Exatamente o que se devia proporcionar aos alunos.

Ah, a propósito. O texto de Antônio Carneiro Leão que abre este artigo foi escrito em 1923... O Brasil não tem problemas novos.

Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista