08 de julho de 2026

Cofre fechado


| Tempo de leitura: 2 min

–Pedro, vai ali me chamar o Agnaldo, para me fazer um serviço. Tudo o que ele faz é uma porcaria, mas não temos outro, só aquele idiota. Que não traga com ele o Jorge, um ordinário, pior do que ele. Nem o Ernesto, que é melhorzinho, mas é outro banana, vive bebendo e chafurdando naqueles casebres que viram a noite. Pergunte pela Zefa, se ela ficou melhor da tosse. Eu queria que ela piorasse, que nunca vi mulher de língua tão afiada. O xarope que ela está tomando, feito pela Helena do Zeferino, deve parecer mais purgante, que ela não sabe nem esquentar uma água, e anda espalhando que é cozinheira. O filho dela, o Roberto, vive naquele namoro escandaloso com a filha do Moisés. E diga para trazer de volta a enxada que eu emprestei. Pede uma coisa e outra de qualquer um e vai ficando, vai ficando, no fim dá um sumiço, fazendo todo mundo de bobo. O diabo, e você bem sabe, é que não posso contar com a ajuda do Beto, aquele moleque, nem do João ou do Tadeu, cada um deles uma lesma, nenhum deles serve nem para dar um recado. A mulher do Tadeu, coitada, se mata de trabalhar feita uma escrava para alimentar a ninhada de filhos, porque preguiça mora com ele. Ela também é culpada, porque permite que a filha dela, a Matilde, ande zanzando por aí, fazendo coisas que Deus não perdoa. Contei para o Dico e ele abriu a boca e pôs a mão, de espantado que ficou. O Fábio, irmão do Tadeu, é outro, nem perdão de papa dá jeito naquela raposa. E a Mariazinha com o Raimundo. . . Que Deus me livre. Beijo até os dedos em cruz. Bem . . . bem . . . O que eu sei da dona Suzete, nem Deus dá jeito.

Suspirou, acendeu o cigarro, arrematou:

- E olha lá, hem. Dá o recado e volta. Siga o meu conselho: nunca se meta na vida de ninguém. Minha boca é um cofre fechado.