Uberaba, década de 30. Aniversário de sete anos do garoto que se destaca na foto pelo tamanho irreal em virtude de artifício: colocaram-no sobre banquinho, caixa de refrigerante, talvez. Duas crianças esboçam sorriso, quem sabe saboreando mentalmente as guloseimas que estão sobre a mesa. As outras estão sérias: é provável que recebessem sermão em casa: não avançar sobre os doces, esperar a oferta. Devem ter ouvido: ‘comportem-se... senão!’, porque naquela época as crianças eram educadas com frases que terminavam com advertência. Esmeradíssimo preparo: apenas um menino em manga de camisa, o aniversariante com lenço no bolso do paletó e a menina, única por sinal, traz nada discreto laço de fita no cabelo. Guaraná Antártica, ainda do tempo da estrela de David no rótulo. Acepipes: brigadeiros, docinho de coco, cajuzinho, doce de abacaxi, balas. Vai começar a festa. O garoto aniversariante, filho único de gerente dos Correios e dona de casa, anos mais tarde terminaria os estudos de segundo grau sonhando com o curso de Engenharia em Belo Horizonte. Habilidoso e criativo, revelava talento para projetar e lidar com máquinas. Mas o sonho era maior que o orçamento familiar. Melhor ficar em Uberaba e fazer Medicina, curso disponível na faculdade recém-criada na cidade. Ele concordou, mas não abandonou a antiga habilidade criativa. Dizem que, durante o curso, apaixonou-se por Nefrologia e teria participado dos estudos iniciais para desenvolvimento de pioneira máquina para hemodiálise, conta a lenda familiar. Uniu habilidade à necessidade e às possibilidades: belo exemplo de mimetismo bem-sucedido e conseqüente adaptação às circunstâncias. Seu nome é Maurício Araújo.
(Lúcia H. M. Brigagão)