Histórias, relatos e notícias de agressão a professores por alunos e pais de alunos tornaram-se frequentes e rotineiras
Ainda causam, em muitos leitores, a mesma indignação da primeira delas que soou como exagero, tal a absurdez implícita nas manchetes de jornal e rádio que traziam as notícias. As causas dos ataques possuem diferentes origens, ligadas às mudanças das sociedades, dos cidadãos, dos interesses e da ideologia típica a cada época.
Reconheço e considero tais razões. No entanto, ouso imaginar outra causa, que somada àquelas, tornaram o professor brasileiro alvo de hostilidade, agressão e desrespeito: seu salário. Desvalorizado por seu trabalho, aviltado pela recompensa financeira ridícula por horas de empenho e dedicação, ele se submete às agressões e se deixa punir através delas. (Parece absurdo, mas a mente humana possui meandros disparatados.) É de se lembrar que nos anos 60 o ordenado do professor iniciante com oito horas de trabalho diário pareava com o recebido pelo juiz de direito. E hoje? Quanto ganha um, quanto ganha outro? Que benefícios sociais recebe um, que benefícios sociais recebe outro? Qual a projeção social de um, qual a projeção social do outro? O assunto merece profunda análise, o que não impede algumas pinceladas da parte desta que ainda reverencia seus próprios professores, quando ainda os encontra. Ou apenas se lembra deles.
Professora de formação, minha carreira sofre hiatos no tempo, o que me permitiu acompanhar a decadência do prestígio que sofreu o profissional de educação. Percurso de décadas: entrei numa sala de aula como mestra em meados dos anos sessenta; passei pela fase de filhos escolares e hoje, levo netas para a escola. A bem da verdade, a avaliação – e consequente ensaio comparativo – vai além e tem início no momento em que penso nos meus professores. Meus professores. Tinham postura, eram sérios a partir do que vestiam. Os homens usavam ternos, as mulheres, saias e meias de nylon. Algumas delas, saltos altos. As aulas eram quase solenes. Nas cerimônias públicas o Delegado de Ensino era chamado ao palanque junto com as demais autoridades do município. Aqueles professores deram seus nomes a ruas, praças, estabelecimentos de ensino. Quando comecei a trabalhar em escolas o primeiro salário – correspondente a 24 aulas semanais – foi responsável pela maior farra financeira que já fiz na vida. Comprei presentes para mãe, pai, futura sogra, irmãos, toca-discos portátil (de vinil) último tipo, fechei com icônica pulseira de ouro italiana, pesada e maciça. Tudo a vista. Sobrou-me algum para o resto do mês e pequena poupança. Quanto recebe hoje o professor que dá 24 aulas semanais? Nem sei se há professor que dá 24 aulas semanais. Só se for por puro diletantismo.
O tempo escolar da geração dos filhos foi marcado pelos primeiros sinais de decadência e desvalorização profissional: começaram as queixas salariais; as duplas, triplas jornadas de trabalho em busca de salário adequado. A aura de autoridade do professor começou a se esvanecer e, crime dos crimes, o professor se transformou em ‘tio’, em nome de pseudo-afetividade. Espécie de cuidador especializado, ele muitas vezes deixaria (e deixa) de ensinar álgebra, ciência, história e geografia, para substituir pai e mãe na educação basal dos ‘sobrinhos’. Na sociedade poucos cidadãos conhecem o Delegado de Ensino e os nomes de ruas, praças e escolas obedecem a outro código de merecimento. Quisera eu que fosse diferente. Com técnicas, aparelhagem disponível, possibilidade de ‘competentização’ constante que permitiriam resultado fantástico no desempenho dos alunos, quisera eu que professor e família se ombreassem na tarefa de educar as novas gerações. Quisera eu que os papéis não mais se confundissem, que os pais entendessem a necessidade de limites e os filhos os percebessem. Que nossas leis fossem simples e diretas, que a Educação fosse reconhecida como único caminho para qualquer cidadão tomar vergonha na cara. O assunto é vasto, longo e tem vários segmentos. Isso aqui é apenas um desabafo: não entendo como se pode surrar um professor, criatura que ainda respeito até a raiz dos cabelos, e ficar impune.
GARRAFADA
Receita para curar bronquite e asma: ‘30 folhas de guaco. 5 folhas de mexerica enredeira. 5 folhas de limão galego. 5 folhas de laranja. Punhado de flor de limão galego. 3 limões galego cortados ao meio. 1 pedaço de canela. 1 copo de mel. 1 copo de açúcar. 1 litro de água. 1 colher (de chá) de óleo de rícino. Ferver tudo, menos o óleo e o mel. Quando ficar igual a xarope, deixa esfriar e aí acrescenta o mel e o óleo. Põe na geladeira. Tomar 1 colher todos os dias em jejum.’ (Tiro e queda!).
RECEITA
Para curar cólicas. ‘Hydrolato de alface - 120,0. Tinctura de belladona - 20 gotas. Tinctura de Valeriana 2,0. Bromureto de Potássio - 1,20. Xarope Flores de laranjeira 30,0. Medida: Tome 1 colher de sopa de hora em hora.’ (Está no diário de família, datado de 13 de abril de 1923, escrita em bico de pena. Não aconselho a reprodução, vale apenas como curiosidade, mesmo porque nem se usa mais ter cólicas menstruais.)
WILDE
‘Todos estamos deitados na sarjeta, só que alguns estão olhando para as estrelas’: citação tirada de O leque de Lady Windemere, peça de Oscar Wilde que estreou em Londres em 1892 e em 2003 teve roteiro transformado em filme (excelente) com Helen Hunt, Scarlett Johansson, Tom Wilkinson, entre outros nomes brilhantes. Dirigida por Mike Barker, a comédia australiana é fantástica: ágil, rápida, diálogos espetaculares. Inesquecível.
EMBARAÇO
‘Que vergonha de ser brasileira!’ (Pensamento imediato à leitura das declarações de José Dirceu sobre corrupção no STF.)
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br