10 de julho de 2026

Para moradores, Abrigo ‘derrama’ viciados no bairro


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Frase pichada na parede de uma empresa na Vila Gosuen faz alusão ao consumo de drogas

Corpos estirados no chão. E não é uma chacina. Segundo um empresário da avenida Flávio Rocha, na Vila Santa Terezinha, que pediu para ter sua identidade preservada, era essa a cena que ele encontrava à noite e no início da manhã, em frente à sua empresa. Usuários de crack e outras drogas ficavam espalhados pelo chão, dormindo. O sono era tão pesado que nem a presença de funcionários e o disparo do alarme os acordava.

Um funcionário, que dorme no local e vigia o barracão, também presenciou a mesma cena, repetidas vezes. “Era preciso sair pulando o pessoal deitado. Nós colocamos uma grade na entrada porque pelo menos eles não ficariam aqui dentro. Funcionou”, disse o empresário.

O relato é apenas de um ponto localizado, mas, segundo moradores das imediações das avenidas William Azzuz, Flávio Rocha e Dom Pedro a presença de usuários de drogas se espalha por aquela região. À noite, as ruas são tomadas por “zumbis”. Assim são chamados os dependentes, inclusive crianças, que transitam a todo momento pelas ruas e param apenas para comprar drogas nas “biqueiras” nos predinhos da avenida Dom Pedro e Vila Gosuen - no chamado “puxa-faca” - e para fumar crack em algum canto.

Um dos esconderijos que encontraram foi a entrada do barracão do empresário citado acima.

A denúncia é confirmada por imagens das câmeras de segurança do local. As cenas filmadas numa quarta-feira, dia 23 de janeiro, às 20h50, mostram cinco homens e um garoto, aparentando ter 12 anos, agachados próximo ao portão. O muro estreita a entrada para o local, formando uma espécie de funil. É um canto perfeito para eles. Lá conversam e fumam algum tipo de droga, às vezes compartilhando o isqueiro e o entorpecente. “Minha mulher ligou [para a polícia] um dia, aí eles pediram: passa lá em frente e vê a cor da roupa deles. Ah, não vou fazer isso não, eu respondi”, reclamou o empresário, que diz que a Polícia Militar não dá importância para esse tipo de ocorrência.

Uma moradora da região, que também pediu anonimato, disse que é um “inferno” passar pela avenida William Azzuz à noite. Inclusive, denunciou que os usuários de drogas estariam invadindo um terreno da Prefeitura, no canteiro central, para se esconder e usar entorpecentes. “Você só vê luzinha de isqueiro lá”, contou.

Do lado da avenida Dom Pedro, os moradores não aguentam mais a onda de furtos em casas do Residencial Nova Franca e Samel Park. Eles acusam os moradores de rua da região. “Enquanto não tiver leis que funcionem em nosso País, não adianta a gente espernear e reclamar. Nós denunciamos, mas a pessoa que dá o depoimento fica lá [na delegacia] e os que estão aprontando são liberados logo em seguida”, disse uma comerciante da região.

CULPADO?
A tese que a maioria dos moradores apresenta para a grande concentração de mendigos e usuários de drogas nesta região da cidade é a presença do Abrigo Provisório na avenida Dom Pedro. Segundo os reclamantes, os moradores de rua vão para o local, não permanecem muito tempo e encontram tráfico fácil nas imediações. Adair de Carvalho, administrador do Abrigo, diz que essa pode ser, sim, uma das hipóteses para a concentração de usuários naquela região. “Pode ajudar a atrai-los sim porque aqui eles tomam banho, comem. Mas o grande problema é o vício”, disse Carvalho.

De acordo com Carvalho, das 55 pessoas que são atendidas diariamente no local, de 30% a 40% são usuários de drogas. “Nós oferecemos casas de recuperação, mas a maioria não aceita”, completou ele.