O tráfico de drogas é tirano. Aprisiona e mata seus dependentes. Amedronta e amordaça seus vizinhos. Tem a fome de um colonizador, e se espalhou rapidamente por todos os cantos de Franca, dominando territórios. Jardim Aeroporto, Leporace, Centenário, Palestina, Vila Santa Cruz, Jardim Ângela Rosa, Vila São Sebastião, Vila Raycos... O que resta é uma população assombrada e as consequências que o entorpecente traz: furtos, roubos e assassinatos. Por mais que a polícia prenda traficantes, não há efetivo suficiente para vencer essa guerra, cortar o mal pela raiz.
O Comércio, no decorrer dos anos, já publicou dezenas de notícias relacionadas a tráfico, apreensões e outros casos de envolvimento com drogas por toda a cidade. Nesta edição, mostra o drama que atualmente ronda os moradores do Jardim Ângela Rosa, Vila São Sebastião e região do Abrigo Provisório, na Vila Gosuen. O cenário se repete. Jovens, homens e mulheres disputam espaço em calçadas e casas abandonadas, que transformam em reduto para consumo e comércio dos entorpecentes. A vida deles vai sendo destruída pelas drogas. Vivem sem emprego, sem higiene e sem qualquer perspectiva de futuro. Do outro lado dos muros, protegida por cercas elétricas e cadeados, está a população. Moradores deixam de ir a praças, que são locais destinados ao lazer, porque foram tomadas pelo tráfico.
CRESCENTE
No primeiro bimestre deste ano, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado, foram registradas 102 ocorrências de flagrante por tráfico de drogas em Franca. O número é aproximadamente 30% maior que no mesmo período do ano passado e 37% acima do registrado nos dois primeiros meses de 2011. Em todo o ano passado foram 530 casos de tráfico, segundo a Secretaria. Em cada ocorrência, uma ou mais pessoas podem ter sido presas.
Segundo agentes da Dise (Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes), chefiada pelo delegado Djalma Donizete Batista, 671 quilos de drogas foram retirados de circulação em Franca em 2012. O “prejuízo” estimado para os traficantes foi de mais de R$ 3,3 milhões. A Dise é responsável pela pesagem, armazenamento e descarte de substâncias ilícitas recolhidas em apreensões feitas pela Polícia Militar e Civil.
Um número é ainda mais assustador. Noventa e três por cento de todos os 12.998 delitos praticados em 2012 na cidade estão ligados ao consumo ou à venda entorpecentes. De acordo com a polícia, ou a pessoa usava ou vendia drogas.
Há também o drama daqueles que foram “engolidos” pela droga e lutam para se livrar do vício. Dados da Secretaria de Saúde de Franca apontam que são feitos por mês uma média de 30 pedidos de internação de usuários de drogas, principalmente de dependentes de crack e álcool.
Em entrevista exclusiva ao Comércio, concedida em fevereiro deste ano, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) convocou os municípios para ajudar no tratamento dos viciados. “Estamos criando uma rede paulista de combate à dependência química, mas a tarefa é coletiva. Precisamos ter junto as prefeituras”, disse Alckmin.
POLÍCIA
O combate ao tráfico é difícil e contínuo. A Polícia Militar promete reforçar o policiamento nos pontos de maior conflito. Porém, os militares dependem do flagrante - que o fato seja presenciado no momento em que acontece - para que a prisão possa ser feita. O aumento no policiamento ostensivo, entretanto, tende a inibir a atividade criminosa.
Os agentes da Dise não podem revelar detalhes de investigações para não atrapalhar o esclarecimento dos crimes. A Polícia Civil recebe denúncias e afirma estar atenta aos pontos de maior conflito. Enquanto o problema continua, resta à população se blindar e se aprisionar em busca de proteção.
Colaborou Tarissa Esteves