11 de julho de 2026

‘A Ana Laura veio, cumpriu a missão dela’. Leia a entrevista


| Tempo de leitura: 10 min
Anderson Carlos da Silva e Maralaine Alves se emocionam ao falar da filha Ana Laura, que morreu aos 11 anos

Melhor amiga, sorridente, desprendida. Ana Laura Alves Silva não passava sem ser notada. Palavras de conforto, doações e uma rara felicidade marcaram sua vida. Apesar da condição financeira privilegiada, não gostava de ostentações. Dividir com o próximo roupas novas, brinquedos ou alimentos era o seu prazer.

Ana Laura sofria de leucemia. Há um ano e nove meses esperava por um doador de medula óssea. Era a sua única chance de sobreviver. Na família - ela tinha dois irmãos, sendo um apenas por parte de pai, não foi possível encontrar. A saída foi tentar encontrar alguém fora. Era como ganhar na loteria: a pro-babilidade é de uma em cem mil.

Nada que desanimasse os pais, familiares, amigos, desconhecidos. Uma campanha iniciada na escola dela rapidamente contagiou a cidade. O Hemocentro de Franca cadastra cerca de 180 doadores por mês. Em março, com a campanha no auge, registrou 956.

A mobilização não se resumiu a Franca. Empresário do setor de acessórios para motos, o pai de Ana Laura, Anderson Carlos da Silva, estendeu a campanha para os quatro mil clientes que tem no País. Eles agiram como multiplicadores. A corrente deu resultado. Um doador compatível foi localizado segunda-feira passada, no cadastro nacional de doadores de medula óssea. Os médicos não informaram de onde ele era. A esta altura, Ana Laura estava na UTI do hospital. Ao entrar na sala, já entubada, parou na porta e pediu para ser fotografada. Era a despedida. Ela não pode ser salva pela campanha que ajudou a divulgar. Aos 11 anos não resistiu à doença. Morreu na madrugada seguinte, dia 2 de abril.

Na mesma data, por coincidência, foi aprovada pela Câmara de Franca a lei “Ana Laura”. Ela emprestará seu nome à uma campanha de conscientização de doação de medula que será em setembro, mês do seu aniversário.

Na quinta-feira, dois dias depois do adeus à filha, os pais de Ana Laura receberam o Comércio. Na parede da área de lazer da casa, havia um quadro com a imagem de Cristo e a mensagem: “Jesus eu confio em vós”. Foi um presente que Ana Laura ganhou nos últimos dias de vida. A família não sabe de quem. O cartão, junto com um buquê de flores, só dizia: “dos amigos”.

Comércio da Franca - A luta pela vida da Ana Laura durou um ano e nove meses. De onde vocês tiraram força para enfrentar tal batalha?
Anderson -
Esta força veio da união da nossa família. Veio também da própria Ana Laura, que foi o alicerce de tudo isto. Ela sempre foi uma pessoa muito alegre, sorridente, de bem com a vida e disposta a ajudar as pessoas. Ela queria viver e se dedicou ao tratamento. Mesmo nesta fase final difícil, ela se preocupava com as outras pessoas que também estavam em tratamento, com os amiguinhos que não tinham a mesma condição. Procurava fortalecê-los com palavras, gestos. Isto transmitia para nós este fortalecimento. A Ana Laura foi o nosso alicerce. A gente via nela a vontade de vencer a doença, ela queria muito voltar para a escola e se formar médica. A Mara também nos incentivou muito, ela foi uma mãe 100%, se dedicou demais e isso foi o tempo todo.

Comércio - A Ana Laura sabia da gravidade da doença?
Mara -
Ela sabia de tudo. As enfermeiras diziam que era muito difícil fazer os procedimentos nela, porque ela sabia tudo o que iria acontecer. Sabia os nomes dos remédios e pedia para eu anotar, dizendo: ‘este dói, este dói’. Ela enfrentava o tratamento com muita força. Tinha dias que eu chorava e falava: ‘hoje eu não dou conta’. Daí, ela se levantava, sorria e me incentivava. A Ana Laura parecia político no hospital: ia em todas as salas e conversava com todo mundo. Com ela, aprendi a acreditar que a gente daria conta, pois ela queria. Só agora, no final, que ela realmente entregou os pontos. Já estava cansada, sentindo que não ia dar. Ela pediu para vim morrer em casa.

Comércio - Como foi o pedido?
Mara -
No último dia no hospital, ela falou: ‘mãe, me leva para ficar em casa, quero morrer em casa’. Eu disse que não tinha como e ela insistiu: ‘por favor, mãe, me deixa ficar em casa, pelo amor de Deus. A gente leva o oxigênio’. Parece que ela estava pressentido tudo o que iria acontecer. Acho que a Ana Laura veio com uma missão especial na terra. Ela não veio por acaso, era muito diferente. O amor que ela tinha pelas pessoas com menos condições era muito grande.

Comércio - Que passagem dessa solidariedade que a Ana Laura demonstrava marcou a senhora?
Mara -
Em nenhum momento ela me pediu um ovo de páscoa. Tem um menino muito simples que começou o tratamento. A Ana Laura falou: ‘mãe, faz uma cesta e leva na casa dele para mim”.

Comércio - O amor ao próximo que a Ana Laura expressava ajuda a confortar neste momento de dor?
Anderson -
Acredito que sim. Na hora que você pensa em tudo o que ela deixou de exemplo para nós, a gente sabe que ela veio só para cumprir a missão dela. A Ana Laura veio, cumpriu a missão dela e nos deixou o exemplo. Lógico, a dor é muito forte, é um pedaço da gente que está indo embora. Pela lei da natureza, o lógico seria que os filhos enterrassem os pais e não o contrário, mas a gente se conforta. Sabemos que ela veio e deixou a participação dela de uma forma intensa em exemplo. Nos confortamos com este exemplo de vida. Foi um período curto dela aqui, mas um período que teve uma grande extensão em termos de exemplos.

Comércio - Como foi a criança Ana Laura antes da doença?
Mara -
Ela era muito doce comigo, carinhosa com a madrinha, com a avó. Era uma criança que ligava todos os dias para os familiares dizendo que os amava. Ela separava os brinquedinhos dela para repassar a quem precisava. Nós não ensinamos isto, o desprendimento, a vontade de ajudar a quem precisava nasceram com ela. Eu me prendia às roupas e ela separava e pedia para doar. A Ana Laura não veio por acaso. Foi um presente que Deus nos deu. O que nos conforta é que a amamos intensamente. Mesmo nos momentos mais difíceis do tratamento, ela ficava repetindo que nos amava.

Comércio -A Ana Laura despertou nas pessoas a importância de ajudar o próximo. Em pouco mais de um mês, quase mil pessoas se cadastraram em Franca como doadoras de medula óssea. Como vocês avaliam a mobilização em torno da campanha pela filha de vocês?
Anderson -
Foi fundamental para mostrar, não só para nós, mas para toda a sociedade, que a força vem de dentro da gente. Quando você quer, as coisas acontecem. Ela quis muito viver, quis muito passar isto para nós. Através desta campanha que mobilizou não só Franca, mas cidades da região e do País, pois a gente tentou levar isto ao máximo que a gente pode, temos que tirar o resultado como exemplo para que possamos nos fortalecer cada vez mais. As pessoas que estão na mesma situação, aguardando um transplante de medula, esperam o mais rápido possível a cura. Às vezes, a cura só é possível se o doador estiver à disposição. A dificuldade de encontrar um doador compatível é muito grande. É preciso ficar na consciência das pessoas que, quanto mais gente se cadastrar, mais chance os doentes terão de se curar. A doação demanda um tempo tão pequeno diante de uma vida tão grande que será dada à pessoa que for receber a medula, principalmente se for uma criança como a Ana Laura. Não precisa gastar nada. Basta cada um dedicar um pouquinho de seu tempo.

Comércio - Na véspera do falecimento da Ana Laura, vocês foram informados que um doador havia sido encontrado. Como souberam?
Mara -
Foi na hora em que o médico foi nos dar a notícia de que ela estava muito ruim, que não teria jeito de reverter o quadro dela. O médico chegou, fez um carinho nela e contou que tinha aparecido no cadastro um possível doador. Eu falei: ‘não era para ser, doutor. Se fosse, ela aguentaria esperar’. Mesmo com o doador, ainda seria preciso passar por muitas sessões de quimioterapia até o transplante. Foi frustrante, mas ao mesmo tempo, recompensador, pois a gente viu que deu resultado.
Anderson - Era isto que iria falar. A partir do momento em que a campanha se fortaleceu, apareceu um doador. Chegou tarde? Não. Chegou na hora certa. É que Deus, realmente, quis assim. A gente não pôde fazer nada para mudar.

Comércio - Outra coincidência foi a aprovação pela Câmara Municipal da Lei Ana Laura (para incentivar doações) exatamente no dia em que ela morreu. O que significou isto para vocês?
Anderson -
Ficamos felizes demais. A gente não esperava por isto, fomos ter conhecimento pelo jornal. A nossa filha vai marcar uma história na cidade com esta lei e, com isto, vai fazer que vire uma obrigação a sociedade se dedicar, pelo menos uma vez por ano, durante uma semana, a incentivar a ida das pessoas ao hemocentro para se tornarem doadoras. A Ana Laura deixou uma marca dela, como lutadora que foi, para que outras pessoas possam ser ajudadas.

Comércio - O que gostariam de dizer para encerrar a entrevista?
Mara -
Temos muitos agradecimentos a fazer. Foram muitos profissionais que se envolveram com a luta dela. Cada abraço, cada carinho foi de grande importância. A gente agradece muito aos médicos, aos enfermeiros do Hospital do Câncer e da Santa Casa, que às vezes, não tinham nada com a luta dela, mas que se envolveram. Recebemos muitas mensagens e orações de muitas pessoas que não conhecemos. Gostaria de agradecer a todos que se mobilizaram nesta corrente, mas ela não era para ser daqui. Se Deus quis assim, temos de aceitar e só agradecer por ter permitido ela ter ficado este tempo com a agente. Ela estava sempre sorrindo. No dia que entrou na UTI, ela já estava com oxigênio, parou na porta e pediu para eu fazer uma foto e fez assim [levantou os dois dedos, indicando vitória, paz e amor]. Era uma pessoa especial.
Anderson - Acho também que o mais importante são as pessoas que se conscientizaram que filho é fundamental na vida da gente. Muita gente se dedica mais à vida social, ao seu dia-a-dia de trabalho e esquece que tem uma família, seus filhos para criar. É preciso um tempo para os filhos. Às vezes, eles vão embora e a gente não curtiu como queria. Filho é uma dádiva de Deus. Não é o nosso caso, pois fizemos tudo o que pudemos e não pudemos, mas quem realmente deixa a desejar, precisa se conscientizar. Depois que perde é que a gente vê o tanto que faz falta na vida da gente.
Mara - Quando a gente falava para ela ter força, que Deus a estava acompanhando e que estávamos orando, ela falava: ‘Pode ficar sossegada, Deus está me carregando nos braços’. A Ana Laura gostava da religião espírita, ela falava para mim que ela quis esta doença. Durante o tratamento, ela falou: ‘mãe, fui eu que pedi, vamos aguentar porque fui eu que quis esta doença para minha vida’. Às vezes, a Ana Laura chorava no hospital e, depois, dizia: ‘desculpa, eu não fui tão forte’. Ela era só uma criança, não tinha necessidade de ser tão forte. Acho que a Ana Laura era um anjinho que não era para este mundo de pessoas tão complicadas.