08 de julho de 2026

Mercado global


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Apenas a exemplo, suponhamos que o caro leitor é titular de uma empresa na China, uma ‘trading company’ chamada Sunrise, que negocia com ‘commodities’. Como Diretor Geral, autoriza a compra de 2 milhões de toneladas de soja de um país da América do Sul, o Brasil. Preços e prazos acertados, é só esperar a entrega da mercadoria, a ser feita por navios graneleiros que sairiam dos portos brasileiros em direção à Xangai, na China. Dos doze esperados, só dois chegam. O que fazer?

Nosso leitor é, também, caminhoneiro que transporta grãos. Com seu supercaminhão de sete eixos, capaz de carregar quase 40 toneladas de soja, sai de Alto Araguaia, no sudeste do Estado de Mato Grosso, com destino a Santos. A viagem dura quatro dias, mas, para descarregar e considerar a missão cumprida, tem de esperar dois dias na Rodovia Dom Domênico Rangoni, na baixada santista. Vencer quilômetros e quilômetros de estradas, nem sempre de primeira, para dormir na ‘porta do porto’, convenhamos, é demais.

Continuando o exemplo, o caro leitor, na condição de cidadão brasileiro, esmera-se em cumprir, rigorosamente, as obrigações tributárias que lhe impõe o Estado. Com a arrecadação, o País faz obras, muitas delas suntuárias e, em alguns casos, baseadas em projetos mal desenvolvidos. É o que acaba de acontecer, por exemplo, com as empreitadas levadas a cabo para a realização dos Jogos Panamericanos de 2007, no Rio de Janeiro. Para desgosto desse cidadão contribuinte, algumas daquelas obras já tiveram suas demolições anunciadas (o velódromo, o parque aquático) e muitos equipamentos destinados a práticas esportivas especiais encontram-se depositadas em algum lugar daquela cidade. O estádio de futebol chamado popularmente de Engenhão, foi o último sobressalto. As vigas de sustentação da cobertura não resistiriam a ventos de mais de 63 km/hora, segundo laudo de empresa alemã contratada para analisar a questão. Há outros problemas a revelar deficiências de projeto, de construção e de superfaturamento. O ‘legado do Pan’ não parece o pote de ouro que estaria no fim do arco-íris, como nos venderam políticos e dirigentes esportivos. E é uma pena, porque estão prometendo o ‘legado da Copa’, com 12 estádios, obras para melhorar a mobilidade urbana, reforma e ampliação de aeroportos etc.

O diretor da Sunrise chinesa não teve dúvidas: simplesmente cancelou a compra da soja dos brasileiros por quebra de contrato. Prometeram entregar e não entregaram, atitude imperdoável em qualquer negócio, ainda mais no comércio internacional. O ‘imbróglio’ está ligado à obsolescência dos portos brasileiros, sobretudo os de Santos e Paranaguá, que não receberam atenção adequada nos últimos dez anos, tanto no que diz respeito à infraestrutura como de pessoal.

Os problemas portuários, muito bem analisados em ‘Portos brasileiros’ pelo colunista Toninho Menezes, deste Comércio (leia em http://www.gcn.net.br/ jornal/index.php? codigo=205485), continuam a desafiar a competência do governo. Com isso, o caminhoneiro e o contribuinte ficaram a ver navios e o Brasil, perdendo negócios e prestígio na competitiva economia global.

Vicente de Paula Oliveira
Economista