09 de julho de 2026

As índias que ainda preservamos em nós


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No geral, somos dóceis, amáveis e gostamos de cuidar da casa e dos filhos

O chef e astro pop da TV Anthony Bourdan já revelou o que pensa sobre as mulheres brasileiras. Disse-se invejoso dos homens brasileiros: “como podem ser tão felizes?! Levam suas mulheres à praia em trajes mínimos e pasmem: elas ainda ficam pegando nesses marmanjos!” Coisa rara no primeiro mundo.

Luiz Felipe Pondé, filósofo e colunista da Folha de São Paulo, também já falou sobre as maneiras afáveis das mulheres brasileiras, sendo vistas como um sonho pelo homem europeu ou americano. A razão? Parece que guardamos ainda aquelas “qualidades femininas” tão apreciadas pelo sexo masculino: dóceis, amáveis, cuidamos da casa, dos filhos e deles.

Câmara Cascudo, no século passado e no bom sentido, nos classificava de fáceis, amorosas e abundantes. Mas a coisa toda vem desde os primórdios. O padre José de Anchieta se indignou conosco e escreveu “fofocando” para Portugal: “É o lugar onde as mulheres andam nuas e não sabem se negar a ninguém, mas até elas mesmas cometem e importunam os homens, jogando-se com eles nas redes porque têm por honra dormir com os cristãos.” Valha-me Deus!

Comecei essa história toda porque fiquei estupefata com um trecho do livro de Câmara Cascudo ao narrar o dia-a-dia indígena (testemunhado pelo religioso e entomólogo Claude d’Abbeville) e o comportamento das indígenas, o que de certa forma justifica nosso comportamento dócil.

“Voltando da caça, da pesca, do plantio, o indígena deita-se nas redes mastigando alguma coisa. A mulher vem suprindo-o de provisões ligeiras até que a comida mais substancial fique pronta.” Pena para esses aí não terem conhecido o futebol, a cerveja e amendoins coloridos. Nosso comportamento não é mera coincidência.

Ao que consta, os assados eram coisa de homens. Os caçadores chegavam com a caça e a deitavam sobre a trempe ou moquém. Esperavam apenas que desse aquela chamuscada por fora e, sem sal algum, praticamente crua por dentro, a comiam assim vorazmente com o sangue a escorrer pelos cotovelos. As mulheres não. Dos pequenos petiscos à refeição principal, a nossa primeira cozinheira tem nome e ciência, e embora o gosto possa ser insosso para os padrões atuais, não careciam de acuro. Foram as cunhãs as primeiras cozinheiras do Brasil. O cozido está determinado pelos conhecimentos técnicos e pelo cuidado com o que se faz. Técnica feminina e domínio vegetal. O assado precisa apenas das brasas ou a chama vai bem com a urgência do homem caçador. “Quem se apressa come cru, quem espera come cozido.”

Foram as gentis cunhãs, utilizadas sem qualquer protesto pelo homem branco para serviços de mesa e cama, dedicadas e curiosas, que parecem ter resolvido o problema de acomodação do homem português nos trópicos, chegando mesmo a comandar a cozinha dos nossos colonizadores. Mas, curiosamente, as cunhãs desapareceram no tempo.

Tal fato se deu porque apareceu em seu lugar outra mulher, não menos doce, não menos cozinheira, a mucama, talvez mais alegre e mais afeita à cultura do branco. Dizem que ambas eram maravilhosas na feitura de “cousas doces”, mas apenas a negra soube utilizar o açúcar com a maestria que os doces portugueses lhe requisitou, por isso, foi ela a “senhora” das primeiras casas de família da recém descoberta brasilis.

Algum tempo atrás, ler algo desse tipo me mortificaria. Cultuei minha independência e, sinônimo disso, era relegar qualquer traço de feminilidade que desaguaria na subserviência. Não sei quanto às outras mulheres de minha geração, sei que hoje reconheço, não sem um certo travo na garganta, que fazer o bolo orgânico, que minha filha tanto aprecia, me dá a mesma satisfação que colocar na carteira o sal do meu trabalho.


Dica da semana

Araticum ou marolo

Já havia notado uma barraca na feira de domingo que vez ou outra nos apresenta umas frutas novas, normalmente do cerrado brasileiro. Comprei por lá dia desses o umbu-cajá. Agora, essa semana eu vi o araticum, mais conhecido por nós como marolo, que é um parente da fruta do conde. Diferentemente dessa, o araticum não é cultivado nem muito utilizado na culinária, é extrativismo puro. Extremamente nutritivo, capaz de nutrir completamente uma pessoa, fica delicioso e cheiroso quando fervido junto com leite até o ponto de doce.

Se você obtiver 600 gramas de polpa de araticum, precisará de 3 litros de leite integral, 1 quilo de açúcar, 1 pitada de sal e uns 3 cravos.

Ferva o leite por mais ou menos uma hora junto com o açúcar, o sal e o cravo. Só então acrescente a polpa. Espere engrossar um pouco e retire do fogo. Para retirar os grumos, bata tudo no liquidificador. Aí é hora de verificar o ponto desejado do doce.

Uma sugestão ainda mais exótica é usar o leite de cabra, ou ainda substituir o açúcar pelo leite condensado.

P.S. Essa barraca fica à direita do primeiro semáforo entre a rua Floriano Peixoto e a avenida Major Nicácio.