Vitimizada por intensa e incômoda coceira que quase acabou comigo, procurei ajuda médica. Prescreveram-me antialérgico, o danado do corticóide, pomadas com nomes complicados
Estou em franca recuperação, ainda que os males que me acometeram nada mais sejam que sintomas do inferno astral que antecede o aniversário da gente: passada a data, tudo volta à normalidade, tudo anda sobre carretéis. Foi o que minha irmã disse e acredito nela. A dublê de cozinheira e técnica em panacéias de casa, dona Joana, viu-me com cafubira, recomendou uso de alquimia antiga. Foi quando, desconforto à parte, tive oportunidade de me lembrar dos remédios que tomávamos quando crianças e jovens. Depois da lista, me perguntei: como é que sobrevivemos?
Os tempos eram outros e as injeções feitas através de seringas de vidro, agulhas rombudas de tão reaproveitadas, assepsia do kit feita com álcool e fogo em dispositivo colocado na tampa da caixa de metal para onde iam agulha, ampola e êmbolo, depois do crime da aplicação. Usávamos Merthiolate e Mercurocromo (sugestivo nome para dupla sertaneja) nas feridas e até nas espinhas e assaduras. Foram proibidos depois, nem sei o motivo. Para chegar à fase do uso desses dois desinfetantes, tínhamos que crescer. E por que maneira o sadio desenvolvimento físico era incentivado? Emulsão de Scott! cujo rótulo tinha um homem carregando enorme bacalhau às costas. O cheiro e sabor horríveis do remédio, tudo indica, é que afastavam o perigo da desnutrição infantil e dize-se, pura maldade, são bases de grave trauma de infância: o uso do composto vitamínico representa a primeira coação da maioria das vidas dos que possuem “enta” na idade cronológica.
Também cuidava da nossa saúde outro ícone farmacêutico: Biotônico Fontoura, que popularizou a figura do Jeca Tatu e editava disputadíssima literatura, distribuída gratuitamente todo final de ano. O Almanaque Biotônico Fontoura – leitura obrigatória – trazia receitas, conselhos, calendário, feriados, nomes dos santos dos 365 dias, piadas, pílulas culturais, dicas de moda, maquiagem, dava receitas. Líamos porque tínhamos visão privilegiada: no máximo de vinte páginas, um mundo de informações, verdadeiro chip de armazenamento de dados num tempo que máquina de escrever era o máximo da modernidade. O Biotônico trazia na fórmula: ferro, para o sangue, fósforo para músculos e nervos. Apenas uma colher antes do almoço e outra, do jantar.
E quem não tomou e cantou “Alka-Seltzer existe apenas um, e como Alka-Seltzer não pode haver nenhum”? Servia para ressacas provocadas por exagero de bebidas alcoólicas e excessos gastronômicos. O que dizer das Pílulas de Vida do Dr. Ross: sim as que “fazem bem ao fígado de todos nós”? Pouco. Outros benefícios, informados no rótulo: “levam auxílio ao estômago dyspéptico, energia ao fígado entorpecido, actividade aos intestinos apertados, vida nova ao sangue impuro, ao corpo e paz aos espíritos.” “Pequenitas, pero cumplidoras”, dizia-se. A lista do kit de sobrevivência daquelas priscas eras é extensa e eram comercializados tranquilamente nas farmácias, sem necessidade de receitas médicas. Tinha Leite de Magnésia (eca!), Limonada Purgativa (credo!), Citrato de Magnésia (grrr!) que tiravam o desconforto das prisões de ventre e, literalmente, o enfezamento das pessoas. Para o caso de exagero e descompensação dos efeitos desses remédios ou de piriris sem etiologia aconselhava-se Entero-Viorfómio – não havia diarréi
a que resistisse. Gripes? Tosses? Rouquidões? Rhum Creosotado. Cataplasma Hartman. Problemas que achacavam senhoras? Regulador Xavier, o remédio de confiança da mulher. Melhoral: espécie de faz-tudo nacional: “para dor de dente, de cabeça, de ouvido e outras dores; melhora tensão dos nervos, o desânimo físico e o cansaço mental: componentes que atuam suavemente e efeitos mais que duradouros. Questão de segundos!” “Chulé? Cânfora no Pé!” Daí me perguntar: como a gente sobreviveu?
Se os remédios prescritos pelo profissional resolveram meu problema? Minimizaram. Estou propensa a acreditar que o restabelecimento se deveu àquele indicado por dona Joana: coceira alguma resiste a Vodol. Almucábala pura, quase benzeção.
Poema
Livros de propaganda apontam o texto considerado o melhor anúncio do século, veiculado como cartaz afixado na parte interna dos bondes que circulavam no Rio e em São Paulo. É a sextilha: “Veja, ilustre passageiro, o belo tipo faceiro, que o senhor tem a seu lado. E, no entanto, acredite: quase morreu de bronquite, salvou-o o Rhum Creosotado.” Criado entre 1918 e 1928, foi utilizado como anúncio em jornais e revistas. Na era do rádio (anos 40 e 50) servia de mote para improvisos de Alvarenga e Ranchinho, famosa dupla sertaneja da época.
Escatologia?
Talvez brincasse o mestre querido, conhecido por seu humor e ironia. Certa vez, em aula sobre a origem de palavras e expressões, disse que o sujeito com constipação, ao contrário do que a gente pensava – resfriado e com congestão nasal – na verdade padecia de “prisão de ventre”. Constipado, então, é aquele que está, literalmente, “cheio de fezes”, “em-fezado”.
Esbanjamento
52 quartos para acomodação da equipe brasileira que acompanhou Dilma a Roma. 17 automóveis alugados para o transporte do séquito: quatro ministros, suas mulheres, pessoal de apoio e segurança. Os gastos e luxo chamaram a atenção da imprensa internacional: deu manchete na primeira página no jornal espanhol ABC. Nenhum petista assumido comenta esse tipo de notícia.
Declaração
“O Papa é argentino, disse a presidente, mas Deus é brasileiro”. O Capeta também é, bem como sua horda. E é político.
Viaduto
“Viaduto? Que viaduto? Me mostre o viaduto!”
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br