A última semana foi marcada por uma denúncia de estupro em Franca que deixou todos estarrecidos. Uma babá de 44 anos é acusada por um menino de 5 anos de estupro. Segundo relatos do garoto, ela se trancava no quarto com ele e pedia para ele tirar o short e a cueca e colocar o “pipi” em sua vagina. Um exame feito no IML (Instituto Médico Legal) constatou uma inflamação no pênis da criança, mas ainda não se sabe se é uma DST (Doença Sexualmente Transmissível). Os estupros teriam acontecido na casa da família enquanto a babá cuidava dele e de outros dois irmãos menores. A denúncia foi feita pela família à DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) no dia 8 de março e teve grande repercussão na cidade. A babá nega a acusação.
A psicóloga Fabiana Aparecida de Oliveira Zagolin, 36, trabalha na DDM de Franca. Foi ela que conversou com garoto de 5 anos quando a família fez a denúncia. Na função desde 1998, a psicóloga tem experiência no atendimento às vítimas de abuso sexual. Em seu trabalho, assume papel importante para auxiliar o paciente a superar o trauma causado pelo estupro e para municiar a polícia de elementos que confirmem ou não a veracidade da denúncia. Na ausência de provas materiais que confirmem o crime, como marcas pelo corpo, coleta de material genético do agressor ou imagens do ato, o depoimento da vítima é a ferramenta importante para os abusadores serem presos.
Os 15 anos atuando cotidianamente com casos escabrosos - em 2012 foram 80 denúncias de estupros - prepararam Fabiana profissionalmente para lidar com situações muito difíceis e delicadas. Mas mesmo com todo esse preparo, a psicóloga é sincera ao admitir que jamais atenderia um estuprador como paciente. “Não tenho estrutura emocional para atender um tipo de pessoa dessa”, disse ela, explicando que acredita que há casos em que as pessoas que cometem abusos sexuais são doentes, mas que na maioria apresentam desvio de caráter, “são maldosas”.
Fabiana, que é casada há 10 anos com Alexandre Zagolin, principal responsável por seu ingresso na delegacia, recebeu a reportagem do Comércio em seu consultório e contou um pouco mais sobre as denúncias de estupro e a dura rotina de lidar com tragédias familiares.
Comércio da Franca - Nesta semana, a senhora atendeu o garoto que acusa a babá de ter abusado sexualmente dele. Acredita na história? Uma criança seria capaz de inventar uma história como essa?
Fabiana Zagolin - Até conversei com a delegada sobre esse caso. Uma criança com 5 anos pode criar historinhas, fantasiar algumas coisas, mas não pode falar detalhadamente sobre o ato sexual. Isso não foi inventado. Ou fizeram isso com ele ou ele viu acontecer com alguém. Mas essa possibilidade é muito remota [de ter visto outras pessoas]. Infelizmente, alguma mulher praticou esse ato com ele. O menino diz que era uma brincadeira [colocar o pênis na vagina da mulher] que ela [babá] ensinou.
Comércio - Nos últimos meses, cresceram as denúncias de crimes sexuais e os autores costumam ser pessoas próximas. Como é o atendimento psicológico a essas vítimas?
Fabiana - Com crianças menores de 14 anos, é usada a ludoterapia, que é um trabalho com brinquedos, jogos e desenhos. Através da expressão da criança, no jogar e desenhar, ela costuma mostrar para o psicólogo o que ela está sentido e o que está acontecendo na vida dela. Vou fazendo algumas perguntas durante o atendimento e a criança acaba relatando.
Comércio - E as respostas costumam ser positivas aos estímulos?
Fabiana - Sim, elas são. Estou na DDM já faz um bom tempo [15 anos]. Graças a Deus, na maioria dos casos que atendi, consegui atingir bons resultados, pelo menos na parte psicológica.
Comércio - Após levantar esses dados, como acompanha o desenvolvimento emocional das vítimas?
Fabiana - Como são muitos casos de abuso sexual, trabalho como se fosse uma psicóloga de plantão. Estou na DDM para atender os casos urgentes. Dou apoio, respaldo, aquele colo que a criança precisa para o momento. Tento fazer a criança ficar mais leve em relação à toda a situação que ela está vivendo. Isso relatando o que realmente aconteceu com ela. Tento mostrar para a criança que se ela expressar aquilo que ela sente, ela irá se sentir melhor. É uma das formas de ajudar a lidar com trauma que ficou e agora tem que enfrentar. As vítimas são encaminhadas para o Creas (Centro de Referência Especializado da Assistência Social). Lá as crianças e suas famílias recebem um acompanhamento feito pela equipe de psicologia. Não tenho como fazer atendimentos prolongados com essa criança, porque registramos um boletim [de ocorrência] e entra outro, são muitos.
Comércio - Apesar de dizer que não há tempo para manter um atendimento de longo prazo, existe algum caso que demandou mais tempo até a criança revelar o abuso?
Fabiana - Tivemos um caso marcante. Um menino de seis anos que levou um ano para conseguir se abrir comigo. Ele chegou praticamente mudo à delegacia, mas constou no laudo [exame de corpo de delito] que havia ocorrido coito [penetração] anal, que ele tinha sofrido abuso sexual e mesmo assim ele não confirmava. A gente conversava e nada. Ele desenhava algumas coisas e nada. Era difícil, mas falava para a delegada [Graciela Ambrósio]: ‘Eu não vou desistir. Vamos esperar um pouco e dar um tempo para ele’.
Comércio - Por que não desistir?
Fabiana - A criança tem o tempo dela. E o tempo desse garoto foi de quase um ano. O avô que havia abusado dele. Foi um dos casos de atendimento a pacientes vítimas de abuso mais difíceis que já acompanhei.
Comércio - Por que essa criança teve tanta atenção sua?
Fabiana - Toda criança que precisa dedico mais tempo. É um assunto muito pesado. A criança tem que relembrar tudo que aconteceu com ela e isso é realmente muito pesado.
Comércio - Qual a sua sensação depois que ele revelou o abuso?
Fabiana - Nossa, nunca me senti tão bem. Sabe aquela coisa de dever cumprido? De alívio de ter ajudado uma criança a voltar a sorrir? Ele era um garoto miudinho, sofrido e estava muito triste. A minha maior alegria foi ver a criança brincando comigo e me chamando até para ir ao aniversário dela. Tem criança que chega na delegacia e fala direto: ‘aconteceu isso comigo’. E joga o peso das costas dela para nós. Mas nem sempre agem assim.
Comércio - Uma parte muito importante do seu trabalho é conseguir levantar junto à criança elementos que ajudem nas investigações policiais. Como faz para extrair essas informações?
Fabiana - Vou lhe falar uma coisa, a criança precisa ter empatia com o psicólogo. Na delegacia é muito complicado [criá-la] porque elas só estão sendo atendidas porque viveram alguma tragédia.
Comércio - E como a senhora se prepara para chegar e trabalhar com esses dramas familiares?
Fabiana - No começo foi muito mais difícil, porque acabava me envolvendo com os pacientes e a histórias deles. Imagine ver uma criança ali do seu lado pedindo ajuda por ter sido vítima de algo tão grave. Carregava os problemas da delegacia para minha casa e isso acabava comigo.
Comércio - O que mudou?
Fabiana - Hoje deixo os problemas lá. Tenho também meus pacientes do consultório [particular] com outros tipos de problemas. Mas tenho minha casa, marido, família. Então aprendi que a gente tem que separar as coisas.
Comércio - A senhora ficou mais ‘fria’ em relação aos casos?
Fabiana - Nunca, isso não sou mesmo, mas se fosse uma pessoa extremamente sensível, nem daria conta de trabalhar com essas crianças, atender esses tipos de casos.
Comércio - O que a levou a trabalhar na DDM?
Fabiana - Quando me formei, não tinha muito conhecimento prático. Nem sabia que existia esse tipo de problema [estupro] em Franca. Era uma coisa muito distante da minha realidade. Mas como o marido da delegada era investigador e conhecia meu marido [na época namorado] pedi para fazer um estágio na delegacia. E assim começou minha história na DDM.
Comércio - E como foi quando iniciou os atendimentos na delegacia?
Fabiana - Meu Deus. Eu me deparei com o caso do Carlinhos, que estuprou dezenas de crianças. Foi meu primeiro caso. Cheguei crua, totalmente despreparada. Tinha apenas a minha psicologia e meus sentimentos para transformar tudo aquilo em algo construtivo.
Comércio - Muitos acreditam que os autores de abuso são pessoas doentes e que precisam de tratamento psicológico. Qual a sua impressão sobre isso?
Fabiana - Tenho várias. Tem a pedofilia, que é uma doença, mas tem a questão do caráter também. Não podemos jogar só na conta da doença e dizer que aquele estuprador é doente, que coitado ele é. Penso que não. Ele não é doente. Doente rasga dinheiro. São pessoas maldosas.
Comércio - A senhora afirma que a maioria dos abusadores não são doentes, mas o que explicaria uma mulher de quase 50 anos tentar relações sexuais com um menino de apenas 5 anos ou um avô abusar do neto criança?
Fabiana - Temos que levar em conta como que essa pessoa vive. O consumo de álcool e drogas pode ajudar a manifestar essas atitudes erradas. A questão do caráter é importante e tem que ser levada em conta, além das patologias em que é comprovado que existem desvios sexuais. Depende do caso.
Comércio - Você atende quem pratica os abusos? Aceitaria ter como paciente um estuprador?
Fabiana - Não. Jamais. Não tenho estrutura emocional para atender um tipo de pessoa dessa. Atender a vítima sim, agora atender uma pessoa desse nível, com esse tipo de problema não tenho [estrutura].
Comércio - Você disse que é muito ocupada com a família e o consultório particular. Pretende se desligar da DDM futuramente?
Fabiana - É um trabalho pesado, não é para qualquer um. Tem que ter estômago. Penso em sair para engravidar. Ter tempo para meu filho, mas sou fiel à Graciela e à delegacia. Sempre que precisarem de mim estarei aqui para ajudar no que for possível.