“Vendem-se Palavras”, diz o anúncio.
São palavras de vitrine - confinadas e devassadas, inertes; impudica e impunemente expostas atrás de vidros, desmisteriosas, ou embaladas em capas chamativas. Cada uma traz de brinde, sem prazo de validade, dois ou três significados prontos para o consumo - opções denotativas sobressalentes. Podem ser usadas e reusadas, numa gastança infindável do já sabido.
Além dessas, há outras, oferecidas em bancas. São produzidas em série, atendendo aos apelos da moda; previsíveis, numerosíssimas; feitas com material de procedência duvidosa, em lucrativas fábricas que as negociam aos borbotões, por atacado, sem preocupação com qualidade e bom acabamento. Muitas, desgastadas ou defeituosas, são maquiadas com camada fina de tinta ou verniz.
Nas pontas de estoque encontra-se, às vezes, alguma coisa de boa qualidade, procedência confiável (há que se ter cuidado com a procedência, com a matéria-prima nelas usada, já que palavras são alimento), mas só raramente aquela que nos caiba na alma e a sacie.
Há também as de segunda mão (ou terceira, ou mais...), vendidas (e mesmo doadas) em qualquer esquina: puídas, rotas, ou quase rotas.
Não. Não são essas as que procuro - embora palavras eu venha buscando, diligentemente, desde há muito, num desejo insaciável, numa necessidade premente, a um tempo anímica e visceral, que em certos momentos interfere no viver, no livre respirar, e quase me sufoca. Prefiro sair ao encalço daquelas que não se deixam alcançar facilmente; que não se exibem a todos os olhares, despudoradas, vulgarizadas, literais... Desencantadas.
E agora surge, de novo, essa vontade de capturar tais palavras vivas, como se capturam borboletas raras; admirá-las, amá-las, possuí-las... E lançá-las de novo - grávidas, quem sabe? - ao vento das polinizações. Quero as palavras livres e belas; essas criaturas multifacetadas, sedutoras... e - por que não? - volúveis, pois que mudam de comportamento conforme se unem a novos pares; conforme penetram diferentes bocas, beijam diferentes lábios, enovelam-se em ásperas ou macias línguas, antes de se soltarem, perderem-se no ar, voláteis, borboleteando novas flores.
Saio por aí, olho à minha volta e à volta do mundo. Tanta poesia e nenhum verbo à mão (desses que alcançam o cerne, arrancam a essência do Belo, no cotidiano, e a trazem à tona).
Vejo uma romã que amadurece entre folhas; uma lua que, embevecida, se descobre no lago em noite de inverno; vejo o balé dos estorninhos sobre o mar e, nele, em corpo e espírito, o Canon em Ré Maior, de Pachelbel, quase me resgatando da condição de bípede terreno, ser não alado, detentor da fala, mas, tantas vezes, carente do verbo que diz a Poesia. (Porque, como observa Drummond, “sabemos que não é bastante ouvir Bach [ou Pachelbel], para elevar o espírito”). Quem já assistiu aos estorninhos em suas aéreas coreografias poderá compreender o que desejo aqui verbalizar.
E eis que subitamente consigo vê-las, as palavras vivas, perto e longe, longe e perto, ariscas; entre as folhas da romãzeira, mergulhando na líquida lua de inverno, volteando no ar, misturadas aos estorninhos.
Tento me aproximar. Caminho na ponta dos pés (temo assustá-las). Não, flutuo; danço ao seu lado, levíssima, silenciosa. Mas elas percebem a minha presença e afastam-se de mim; vão-se, levadas pelo vento, ou por asas invisíveis, ou por um simples capricho de palavra descoberta. Vão-se, cumprindo os mesmos aéreos arabescos, a mesma dança, agora em movimento de fuga.
E eu...
Ah, como são longos os meus desejos e curtos os meus braços! Ineficazes, as minhas mãos, incapazes de alcançar borboletas raras...
E aquela coisa incontrolável que vem de dentro, tentando abrir caminho, querendo sair, vai crescendo e me sufocando: uma romã que amadurece entre folhas... uma lua cheia de vaidade a admirar-se no lago... um bando de aves bailarinas musicando o ar... Beleza a oprimir o peito, Poesia a asfixiar a alma...
Alcançável, só aquele tsunami de palavras desoxigenadas...
De repente, o mundo se esvazia.