Minha querida amiga Emerenciana, certa feita, ao tentar contratar uma empregada doméstica, perguntou à candidata se ela faria o almoço dos patrões. A empregada que não era boba nem nada, de primeira, mandou a pergunta: “com penso ou sem penso?” O que a candidata quis dizer é que cozinharia desde que não tivesse que pensar o cardápio dos patrões. Seria bem mandada, mas nada de tirar das cartolas domésticas o que cozinhar dia após dia. Essa história me fez lembrar minha mãe, que tem verdadeira ojeriza ao “penso” do almoço. Minha mãe se justifica com a escassez das opções, mas desconfio que na fartura ela também reclamaria. Melhor presente para minha mãe é levá-la para almoçar fora, não pela comida, que bem pode ser qualquer uma, desde que não feita por ela.
Pois bem, elas não estão sozinhas. Resolver o cardápio da família é o verdadeiro terror das donas de casa. O assunto, simples e corriqueiro, transforma-se em terreno minado porque encerra um dilema entre o que se quer fazer e o que de fato se pode fazer. Mas o comer está sendo visto como importante manifestação cultural, daí que um assunto simples, que mais parecia fuxico entre comadres, toma ares doutorais.
A antropóloga Lígia Barbosa, que fez uma extensa pesquisa sobre o hábito alimentar do brasileiro, revela que a escolha do que fazer em casa para comer é motivo de tensão em 70% dos lares brasileiros; que a decisão do que fazer não está diretamente relacionada com a preferência individual de quem faz a comida; e que toda a problemática está envolta em questões contraditórias difíceis de combinar: praticidade/improviso versus planejamento/preferências individuais; restrição/liberdade versus prazer/sabor; economia versus extravagância; rotina/tradição versus novidade/variação. Fico imaginando minha mãe debruçada sobre tudo isso...
Claro que algumas questões são mais relevantes que outras, por isso, quando perguntadas sobre qual o maior desafio do fogão de todos os dias a resposta é: variar o mesmo...
Interessante notar que a pesquisa revela que, na hora da compra de supermercado, a maioria das donas de casa parece não levar em conta um suposto cardápio. Compram-se alimentos que mais tarde deverão se virar e compor um cardápio. O que revela uma certa desorganização. Mas, sem peso na consciência, é cultural.
A pesquisa revela que o brasileiro considera o almoço como a refeição mais importante do dia, embora diga saber que o café da manhã deveria ter mais atenção. Fica devidamente comprovado que o jantar é uma refeição em transição e a que mais facilmente pode ser substituída por lanche. Ainda assim, é lembrada como a refeição mais importante sob a ótica da família, porque a reúne.
Esse encontro normalmente ainda é mediado pela televisão em 69% dos domicílios! A maioria entende que deveria desligá-la, mas simplesmente não consegue, “faz parte da família”. Na maior parte dos lares, os assuntos da família, durante o jantar, girarão, direta ou indiretamente, em torno do que a TV mostra. Algumas vezes a TV será apenas pano de fundo, mas deve estar ali, é presença indispensável, como a ancorar a família na sala.
Sábados e domingos se desdobram de formas diferentes. Os domingos continuam a ser sinônimo de família. Continua valendo aquela reunião, o churrasco, a macarronada, o frango assado, a maionese. Varia-se o domingo com relação aos dias da semana, mas não se variam os domingos. Os sábados são a novidade, parecem estar sedimentando uma aura de individualidade, muitas vezes marido e mulher possuem planos diferentes e os filhos são mais facilmente dispensados do convívio familiar. Ou seja, cada um que cace a sua turma, não é a toa que os sábados são adorados desde há muito tempo.
DICA DA SEMANA
Aproveitando figos belos e baratos nos varejões, descolei uma receita de salada com molho de figos que é simplesmente sensacional.
O molho é uma dica porque, além de delicioso, serve bem como base para outros tantos, porque a combinação de cebolas roxas bem fininhas e manteiga é capaz de dar sabor a quase tudo. Acho que dá certo até com doce, qualquer dia eu tento.
Mas, vamos lá: estenda filme plástico sobre uma superfície e coloque um presunto cru esticadinho, em seguida coloque pedaços ou de salmão ou de atum - esse é melhor. E enrole firmemente. Ponha sal, pimenta do reino moída na hora e deixe na geladeira por pelo menos 30 minutos.
Faça o molho: seis figos maduros, meia cebola roxa picada bem fininha, 100 ml de vinho do porto, 50 ml de caldo de legumes, meia colher (sopa) de manteiga, sal e pimenta.
Aqueça a manteiga, doure a cebola, acrescente os figos sem cascas, deixe dourar e cheirar bem. Em seguida, acrescente o restante dos líquidos e deixe reduzir ao ponto de molho. Você pode optar por coar ou não.
Tire o peixe da geladeira e doure em frigideira bem quente com fio de azeite e coloque o molho por cima. É divino.
Fonte: livro Papel Manteiga