Entrelaço os dedos nos dedos da sua mão direita, encaminhamo-nos até a sacada. Aqui, neste décimo andar, sinto que aportamos a meio caminho de dois mundos. Se olhamos para o alto, deparamo-nos com incontável número de lâmpadas acesas. Se volvemos o olhar para baixo, ele paira sobre incontável número de estrelas.
O espetáculo me encanta, e constato, embevecido, que, no céu e na terra, há incontável número de lumes velando o sono das crianças e dos não-poetas.
Enquanto observo mundos, a consciência resvala por entre sombras e instala-se em cômodo do espírito. Então me acorda a lembrança de que alguém me fizera pedido.
– Me ensina a poetar.
Abandonamos a sacada e, ainda de mãos entrelaçadas, andamos até o quarto-escritório. Desfazemos o entrelaçamento de dedos, sento-me à mesa, ela se acomoda em cadeira próxima.
Caneta em punho, desenho registros.
Num passado distante, muito distante, o amigo José Emiliano Lopes me esclareceu:
– O homem comum olha, olha e só vê o trem. Aos olhos do poeta, porém, o que existe de belo são os trilhos correndo velozes sob o trem de ferro.
Na cadeira próxima, ela deixa escapar um bocejo. A caneta, porém, acesa feito farol, cumpre sua missão de registrar o âmbito de visão do comum dos homens e o universo onde o poeta fez morada.
Outro bocejo escapa, e a caneta permanece desperta, registrando.
A mão enrugada e muda, suplicando o pão, lacera o peito do cantor. O cavaquinho abandonado em prego, na parede suja, lacera o peito do cantor. A canoa, cuja madeira apodrece amarrada a um tronco, lacera o peito do cantor. O estilingue que pende do pescoço de um menino lacera o peito do cantor.O leito esturricado de um rio lacera o peito do cantor...
Agora, ela praticamente cochila na cadeira próxima. Mas há mais, e a caneta persiste.
No peito do cantador, há um fogão à lenha. Nele, leve sopro e o rubro de todas as brasas de todos os amores morridos queimam, vivificadas pelo fogo da eternidade.
- Sei que, um dia, transplantarão olhos... Ciência alguma, todavia, me dará o olhar de Camões ou de Bandeira.
No peito do poeta residem os instrumentos todos. Ele enlaça um violão sem cordas e, com o nó dos dedos, gera, na madeira seca, um poema para a mulher amada, ou escreve uma elegia para o irmão oprimido, ou compõe um hino de louvor ao homem que ordenha a terra e distribui comida.
– Não, esses manuseios, não se ensinam.
Na cadeira próxima, as pálpebras tentam inutilmente se erguer.
Então, repouso a caneta, levanto-me, afasto-me pé ante pé. Silenciosamente caminho até o quarto.
Deitado, ouço ainda o ressonar da Insônia. Ele nasce lá no escritório e ecoa suavemente aqui no quarto. Percebo que suas forças se esvaem.
Diante de meus olhos, agora fechados, correm trilhos e em mim desembarca a certeza de que eles não poderão mostrar sua velocidade ao homem comum, nem lhe ensinar travessias, quando se dispõe apenas de um remo e de um oceano.