Da janela do quarto, avistava o quintal da casa ao lado. Não bisbilhotava, mas o calor da época e a segura localização permitiam-me acompanhar com discrição a vida externa. Certa manhã, acordei com vozerio e balbúrdia lá fora. Era na casa vizinha. Afastei a cortina, dei com fonte instalada no meio do quintal que, feito uma escultura, enfeitava o espaço. A chegada em casa naquela tarde coincidiu com a da sorridente vizinha, que se apresentou: ‘Hi! Sou Mrs. Smith, cidadã inglesa, nascida na Guiana Inglesa. Sei que você é brasileira, nascemos em países vizinhos. Por favor, me chame de Lise.’ Surpresa, devolvi-lhe minha ficha. ‘Ok. Hoje à noite faremos barbecue para comemorar o aniversário surpresa do meu marido. Adoraria se você viesse.’ Saí, comprei cartão de felicitações, caixa de bombons. Calças e casaco jeans, botinhas, ao entrar na casa quase caí de susto: todos vestiam brilhos e paetês. Sem graça, distraí-me contando fotos e souvenirs com ilustrações da Rainha Elizabeth e família, espalhadas por todos os móveis e paredes da sala. Veio o bolo, cantaram Parabéns em inglês, repetiram em dialeto que não reconheci. Gelei: olhavam para mim e Lise perguntou, no meio daquele silêncio, se tínhamos letra brasileira para a mesma melodia. Sim, e temos uma canção de Villa-Lobos com esse propósito, respondi. Pode nos mostrar? Claro! E, agradecendo em silêncio a Lúcia Gissi Ceraso, soltei a voz. Devo ter agradado... A fonte? Nunca funcionou: não tinha encanamento, estava ali só como realização de um sonho, Lise me explicou.
(Lúcia H. M. Brigagão)