O fim de ano marcou o começo de profícua parceria, mútua admiração, verdadeira cumplicidade: nós nos somamos
Réveillon em Rifaina. Faz tempo. Convidados por casal amigo, ficamos hospedados no rancho de propriedade deles e lá reencontraríamos parte da família do anfitrião, entre eles, AC (a sobrinha), V (o marido). Dela lembrava-me da cabeleira ruiva, encaracolada e dos olhos azuis grandes e perscrutadores. Dele, marcaram-me a elegância e delicadeza dos gestos, a educação e os cabelos grisalhos, embora jovem. Casal muito bonito, de chamar atenção. O tio, ao longo do tempo, se referia e mostrava os feitos da sobrinha – atividades jornalísticas, matérias assinadas nos grandes jornais. Ela é inteligentíssima, afirmava. A recepção, quando chegamos lá, foi calorosa. Os donos da casa, irmã e cunhado do anfitrião, já conhecidos e pais da AC, nos receberam com todo carinho. V se levantou, cumprimentou-nos como se fôssemos da nobreza tupiniquim. AC deixou o livro, fechou-o, acolheu-me, deixou que entrasse em sua vida: só retomaria a leitura no dia seguinte. Pela noite afora conversamos, trocamos figurinhas: falamos de jornal; ideologia; preferências literárias; cinema; arte; irmãos; meus filhos; tios; pais; da história dela: como foi parar em São Paulo, depois de sair de Ribeirão Preto, como conheceu o marido; medos; sonhos; esperanças; projetos; trabalho. Fim da noite, a distância entre nossas respectivas idades diminuiu por causa das afinidades, que eram muitas. O fim de ano marcou o começo de profícua parceria, mútua admiração, verdadeira cumplicidade: nós nos somamos. Encontrávamos em Franca, na Rifaina, em São Paulo e desde então ela esteve comigo em todos os momentos mais significativos da minha vida. Aceitou todos os convites para as festas que fiz a partir de então. Eu é que não compareci aos aniversários que ela comemorou. Eu é que não fui ao casamento do filho postiço. Eu é que não estive presente em datas especiais do casal. Ela tinha motivo de sobra para julgar-me desatenciosa e mal-educada. Todavia, ao exercer papel de amiga, evitou julgamentos baseados no orgulho, nas falsas evidências e me aceitou sem condições. Nunca me cobrou uma postura sequer. E me ensinou um bocado – com exemplos e atitudes nestes anos de convivência – sobre solidariedade, desprendimento, compromisso, desapego, diplomacia e responsabilidade.
Quando descobrimos paixão comum por Frida Kahlo, a pintora mexicana, fomos juntas conhecer a obra da artista. Oito dias na Cidade do México divididos entre murais do Diego Rivera; museus particulares como o de Dolores Olmedo; bares das tequilas; comidas apimentadas; cidades da prata; Casa Azul da pintora e a outra, moderna, onde ela vivera com Diego; a Catedral da Virgem de Guadalupe e nossa emoção, quando o padre abençoou as imagens que compráramos e discursou sobre a necessidade de união dos povos latino-americanos. Decepção imensa ao descobrir que os originais foram enviados semanas antes para Londres: só vimos reproduções dos quadros de Frida... Emoção imensa ao cantarmos junto com os mariachis – depois de um monte de tequilas – na Plaza Garibaldi, após nos encantarmos com as estátuas de Pedro Vargas e Agustín Lara. Voltarmos juntas no tempo, quando vimos Teotihuacán.
AC vai comemorar incríveis 50 anos. Dizem que conhecidos são muitos, amigos são poucos: quando enumerados na maioria das vezes nem completam a quantidade dos dedos das mãos. Mas tenho fortes motivos para chamá-la amiga: juntas, rimos de bobagens; distantes, somos cúmplices. Sabemos nos respeitar nas divergências. Ela é sincera quando me elogia e eu fico deveras e sinceramente feliz com o sucesso que ela alcança. Jamais competimos. Nunca nos cobramos. Nós nos respeitamos. Eventuais ausências em nada alteram nosso relacionamento. Eu confio nela, ela confia em mim. Eu gosto dela, ela gosta de mim. Já decidi: estarei do seu lado quando ela apagar as velinhas.
Filmes
Os prêmios das várias categorias, na cerimônia conduzida por Seth Macfarlane, estiveram divididos – guarde a lista – entre filmes como Amour, Indomável Sonhadora, Django Livre, Os Miseráveis, As aventuras de Pi, Lincoln, O Lado Bom da Vida, A Hora mais Escura, Anna Karenina, Branca de Neve e o Caçador, As Sessões, Argo, Os Vingadores, O Amante da Rainha, Kon - Tiki, NO, O Impossível. Haja tempo e pipoca para vê-los todos.
Resignação
O diário de Frida Kahlo, em papel vegetal, faz parte do acervo exibido na Casa Azul onde a pintora passou grande parte de sua vida. Impressionante o registro feito nele em 1952, quando ela sofreu dolorosa amputação. Sob o desenho de pés superpostos, sangrentos, colocados como vasos de onde saem ramos carregados de espinhos lê-se a declaração ao mesmo tempo impressionante e impactante: “Pies, para qué los quiero si tengo alas para volar”.
Mulher
1 - “A natureza deu tanto poder à mulher que a lei não pode se dar ao luxo de atribuir-lhe ainda mais poder.” (Samuel Johnson, escritor e pensador inglês). 2 - “A verdadeira igualdade só acontecerá não quando uma Einstein for reconhecida tão depressa quanto um Einstein, mas quando uma idiota for promovida tão depressa quanto um idiota.” (Bella Arzug, advogada, líder femiinista e política judia estadunidense). 3 - “O homem que sustenta uma mulher não pode cobrar nada dela. A mulher que se deixa sustentar não pode cobrar nada dele. Ela tem todo o direito de fazer o que quiser à tarde e ele, à noite.” (Danusa Leão, escritora). 4 - “A única vantagem de viver na companhia de uma mulher é a mulher. Aponte outra.” (Antônio Maria, compositor). 5 - “A mulher foi o segundo erro de Deus.” (Friederich Nietzsche). 6 - “As pessoas mais interessantes são os homens que têm futuro e as mulheres que têm passado.” (Oscar Wilde)
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br