08 de julho de 2026

Questão de escolha


| Tempo de leitura: 4 min

Todos sabemos, em sã consciência, o que é que está errado, mas a gente se faz de cego, surdo e mudo

Assisti, na quinta-feira, interessante palestra de Alexandre Sayad, educomunicador que o GCN Comunicação trouxe para a abertura do programa Jornal Escola 2013. Consultor de várias escolas , há muitos anos trabalhando com adolescentes, chamou a atenção do auditório integrado por professores, diretores de escola, políticos e jornalistas à questão da evasão escolar. Segundo pesquisas de entidades idôneas, percentual relevante de estudantes deixam as escolas por falta de interesse, simplesmente, além da já conhecida evasão por ter que trabalhar.

A verdade, segundo Alexandre, é que as escolas atuais, engessadas por métodos que não permitem liberdade de criação, estão perdendo o interesse de adolescentes acostumados à tecnologia e a padrões de comportamentos que não privilegiam hierarquia e regras sociais. Trocando em miúdos, a molecada acha que é ‘perda de tempo, mas tem que ir, e então, vai...’. A questão, embora pareça nova, não é. Há décadas se contesta a manutenção de matérias distantes da realidade no conteúdo programático das escolas. Quanto a desrespeito à hierarquia e a regras sociais, vem de casa, outrora a primeira e mais importante escola.

A palestra de Sayad fez propõe indispensável reflexão. Penso que isso não dê a nada relevante no curto ou médio prazo. Lembro-me de tentativas ‘revolucionárias’ do professor Wagner Campos, em Franca. Ele levava seus alunos a aulas práticas e condizentes com o que é real nas ruas, a atividades externas.

Foi contestado por colegas e por dirigentes da educação de sua época. Continuou. Só parou quando a pressão ficou insustentável. Conversei, à época, com vários de seus alunos. As aulas do professor Wagner eram ‘diferentes, legais, permitiam exercitar, na prática, o que se esperava de uma pessoa do bem na vida da cidade e, davam experiência”.

Corrêa Neves Júnior, diretor executivo do GCN, em sua fala no mesmo evento, compôs instigante cenário a partir da análise de fatos recentemente cobertos pelo Comércio e Rádio Difusora – o ‘pancadão do funk no Distrito Industrial’, o pedido de renúncia do Papa Bento XVI, e cena de um dos filmes Matrix, onde o personagem central, Neo, consulta o ‘oráculo’ e como resposta à sua dúvida sobre ‘coincidências’, obtém: ‘não existem coincidências, existem escolhas’. Segundo Júnior, a renúncia de Bento XVI foi, da parte dele, uma escolha lúcida, capaz de transformar profundamente a Igreja Católica, e a dos participantes do ‘pancadão’, onde havia meninas nuas e criança de 10 anos fumando ‘maconha’, escolhas certamente causadas por pais despreocupados, autoridades distantes das necessidades do aluno moderno, professores sem criatividade em sala de aula.

O jornalista fechou sua fala lembrando a quem compareceu ao lançamento, que, certamente, ali estavam por escolha ao desafio de fazer diferença, sem qualquer contrapartida; e que as autoridades – representadas pelo prefeito Alexandre Ferreira – ali estavam porque escolheram continuar apoiando um programa de formação de leitores críticos ‘mesmo e apesar dos meios de comunicação do GCN exercitarem a crítica política e factual relativa à administração pública’.

As mensagens de Alexandre e Júnior são importantíssimas. É preciso ouvir, entender e colocar em prática. Ao contrário, ‘pancadões’ continuarão ganhando crianças e adolescentes, escolas e professores tenderão à mesmice e leis caolhas – já que praticamente nenhum eleitor fiscaliza aquele que elegeu – podem, a qualquer momento, liberar da obrigatoriedade a frequência aos bancos escolares. Já pensaram quanto dinheiro ‘sobrará’ para ‘investimentos’ em coisas outras, aquelas que já nos nos acostumamos a observar e que têm feito tanto mal a este País?

APAE
A APAE lançou esta semana, selo ‘Empresa Amiga’ para reconhecer apoiadores que a auxiliam a cuidar de mais mil assistidos por ano. Os critérios de seleção foram propostos pelo Instituto Ethos de Responsabilidade Social. Caio Magri, do Ethos, presente, atestou que o ‘certificado concedido segundo critérios internacionalmente aceitos, chancelado por comissão de representantes da comunidade e registrado em cartório, confere valor de responsabilidade social às empresas certificadas’. Penso que, a exemplo do Top Franca do GCN, que premia anualmente empresas que estão no ‘topo da mente’ dos francanos a partir de pesquisa estatística e matemática aplicada pelo Instituto Datalink, o selo da APAE também será reconhecido por sua transparência absoluta.

ENCONTROS
Saio em curto período de férias. Não publicarei a coluna nos dias 9, 16 e 23. Apesar disso, o tema ‘coisas simples’ que tenho tratado com meus leitores nas últimas semanas, não vai parar. Recebi honroso convite de 40 professoras para conversar proximamente sobre o tema. Elas estão estimulando seus alunos a praticarem ações ‘coisas simples’ em sala de aula e a repetirem em casa. Aceitei, claro. Como disse sábado passado, percorrer grandes distâncias começa com um primeiro e decidido passo.

FRASES QUE FAZEM PENSAR

Leitores deste Comércio, sobre o ‘pancadão do funk no DI’:

‘(...) tende a piorar se a sociedade (não) parar de passar a mão na cabeça e (continuar usando) psicologia barata (sem) punir com severidade os responsáveis tanto quanto aos jovens (...)!’
Cristina Liporaci - Franca (SP)

‘Assim como música é capaz de fazer chorar, funk e rap com letras pesadas são capazes de fazer outros sentimentos aflorarem, e, pior, trazer amizades indesejadas.’
Douglas - Franca (SP)

Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br