08 de julho de 2026

Crimes, pecados e renúncia


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No tempo de faculdade, quando cursava a cadeira de Literatura Portuguesa, li a obra O crime do padre Amaro, escrita por Eça de Queirós, na época que o consagraria (1871-1880). Este livro, de 1876, estuda a influência do clero na burguesia provinciana. A ação passa-se em Leiria, pequena cidade de Portugal, envolvendo o padre Amaro e a ingênua Amélia. Seduzida pelo padre, Amélia morre pouco depois do filho, fruto desse “amor proibido”.

Em certa parte do livro, há um trecho que descreve a forte atração física que o padre começa a sentir por Amélia, mas sem deixar de sofrer a angústia dos votos de castidade: “Amaro achava aquelas unhas admiráveis, porque tudo que era ela ou vinha dela lhe parecia perfeito; gostava da cor dos seus vestidos, do seu andar, do modo de passar os dedos pelos cabelos (...) Ao pé dela, muito fraco, muito langoroso, não lhe lembrava que era padre: o Sacerdócio, Deus, a Sé, o Pecado ficavam embaixo, longe; via-os muito esbatidos do alto de seu enlevo, como de um monte se vêem as casas desaparecer no nevoeiro dos vales; e só pensava então na doçura infinita de lhe dar um beijo na brancura do pescoço, ou mordiscar-lhe a orelhinha. Às vezes revoltava-se contra estes desfalecimentos, batia o pé: - Que diabo, é necessário ter juízo! É necessário ser homem! (...) Descia, ia folhear o seu Breviário, mas a voz de Amélia falava em cima... Adeus! A devoção caía como uma vela a que falta o vento ...”

Isto em 1876, escritos que causaram tanto furor na Igreja e escândalo nas famílias. Mas os relatos de fatos ocorridos aqui e ali no cotidiano da Europa medieval demonstram que o cenário nas abadias de então não era diferente. Leia-se O nome da rosa, de Umberto Eco, a exemplo.

Hoje, 2 de fevereiro de 2013, na segunda década do século XXI, numa emblemática Quaresma, passados dois dias da renúncia oficial de Bento XVI, ficam muito claros, pelas contínuas leituras da mídia nacional e internacional, os fatores que geraram este ato máximo do sucessor do trono de Pedro: crimes e pecados.

Tenhamos em mente que o crime é secular (laico, leigo, temporal, profano) e os pecados de ordem espiritual. Eis o cerne da questão crítica de Bento XVI e, por que não dizer, do homem Ratzinger. Os escândalos de sexo, chantagens, roubos, “hipocrisia religiosa” e disputas pelo poder na Igreja Católica, sob seu papado, revelados em uma investigação encomendada pelo próprio Bento XVI, levaram-no à renúncia. Mas não à inércia administrativa: nos últimos dias, enquanto Papa renunciante, demitiu, puniu e deslocou altas autoridades eclesiásticas que julgava nefastas dentro do Vaticano (apesar de sua fragilidade física anunciada). Ele sabia dos crimes e pecados, sentiu a falta de vocação histórica ao celibato por parte de alguns religiosos; repensou a figura do padre pecador e criminoso, seja o padre Amaro, o da abadia medieval, o das igrejas barrocas de Vila Rica, os do Canadá e Irlanda de hoje; são eles, antes de tudo, homens, filhos de Deus, propensos naturalmente às ações da natureza.

Ignorante nas profundas razões teológicas e dogmas católicos, não posso ao menos vislumbrar o nível excelso do celibato no seio eclesiástico. Durante os chamados “escândalos sexuais” cometidos por padres em diversas partes do mundo, talvez Bento XVI tenha dado um exemplo corajoso e humilde a um só tempo: renunciou ao poder eclesiástico e deixou transparecer que o religioso também cai com o crime, aos olhos do homem, e com o pecado, ao jugo divino, levado pela condição humana. Do pecado a Igreja cuida: ou condena, ou perdoa, levando todos nós a uma profunda introspecção. Do crime, a sociedade dos homens cuida: ou condena ou perdoa, na barra dos tribunais. Por isso Bento XVI agiu como Papa e como administrador, tendo de um lado a inspiração do Espírito Santo e de outro o direito canônico.

O padre Amaro enfraquecera ante o tremor da carne, da carne criada por Deus. A libido, sob os olhos da Igreja, não seria, ipso facto, um dom divino. O controle da libido não poderia estar, em certos momentos, acima das pobres forças humanas? A fé conseguiria EM TODOS OS PADRES CATÓLICOS inibir a libido, por uma simples questão de vontade e controle? Mas como, se Deus assim nos criou?

Não sei bem onde minhas leituras ou minha formação falharam, porque sinto que me faltam argumentos mais profundos para tratar deste assunto. Apenas julgo ser necessária à Igreja Católica uma revisão dos valores e função do celibato. E julgo também que os “inimigos gratuitos” da Igreja Católica, que nunca esperava serem tantos, saibam ponderar suas críticas antes de escrever sobre o assunto. Não é a instituição, não é a Igreja Católica que cometeu um crime e um pecado, mas sim o homem em sua fraqueza diante do dever a ser cumprido, dos votos de castidade, e dos juramentos de fidelidade à instituição, ao Estado do Vaticano.

Em tempo, pontuo ainda:

a) 2/3 da população brasileira continuam católicos, ou seja, cerca de 120 milhões de almas;
b) que seja consenso, no conclave cardinalício: o próximo Papa deverá ter os escândalos sexuais como alvo cotidiano do seu olhar e de sua ação; deverá findar, até o último caso, as indenizações morais e materiais das vítimas de pedofilia e expulsar do Clero os infratores; deverá enfatizar questões seculares da Igreja - o comportamento de seus fiéis no mundo, além da administração do Estado do Vaticano (o que não é pouca coisa), extirpando a chamada ‘hipocrisia religiosa’, o jogo por poder e outros interesses baixos; deverá priorizar as questões espirituais - como ensinar a moral cristã ao homem do século XXI, não mais ao ingênuo aldeão medieval.

Ou seja, há de ser um Papa ‘novo’, vigoroso e contemporâneo.

Que o período de Sede Vacante seja reservado para o debate desses assuntos. E que quando a fumaça branca espalhar-se pelo céu de Roma, os sinos do Vaticano entoarem e o povo exclamar Habemus Papam, entremos na era de uma nova Igreja Católica.