07 de julho de 2026

Reencontro


| Tempo de leitura: 3 min

No filme Reencontro (Relations), do diretor Rob Reines, Morgan Freeman é um escritor fracassado que abandona a literatura. Solitário, vivendo em uma cadeira de rodas, cansado das pessoas, ele se muda para um lugar afastado, perto da natureza e resolve apenas beber para se livrar da angústia que o oprime. Uma menina de nove anos o descobre na vizinhança e lhe faz uma proposta: ela lhe pagaria 34 dólares para que ele a ensinasse a escrever histórias. Quando ela lhe pergunta o que é preciso para isso, ele lhe responde que é apenas saber usar a imaginação. Então, ele lhe propõe um exercício: “Me conte o que você não está vendo.” O filme se desenvolve numa delicadeza de relações que também envolve a mãe da garotinha numa trama que nos encanta. Em uma das cenas finais, após ter se reencontrado com a escrita, ele agradece a menina com um pedido que se sustenta pela beleza. Diz ele: “Prometa-me que sempre irá procurar o que não está vendo”.

Essa frase penetrou profundamente em mim. Como podemos estar lúcidos e plenos para acreditar naquilo que não estamos vendo? Como conseguiremos continuar procurando o que não está presente? Nesse mundo materialista e cercado de certezas absolutamente improváveis, continuamos acreditando somente naquilo que vemos ou tocamos. Vivemos dentro de uma medíocre normalidade que nos leva aos mesmos trilhos, caminhos largos ou alargados por outros pés. Enxergar o que não se vê é sair da confortável estrada para um outro caminho, quase sempre íngreme, a ser inventado pelos nossos próprios passos. É sair de trilhos já construídos para encontrar a nossa trilha. Na relação do velho escritor e da pequena garota abriu-se uma nova paisagem: ela sabia o que queria ouvir e ele também foi capaz de lhe oferecer um coração que podia escutar. Aconteceu um encontro de almas. No Mistério da Vida não há encontro quando as almas estão ausentes e aquela relação acordou duas almas: uma que já sabia o que queria e a outra, adormecida, que morria por falta de ar. A alma do velho escritor voltou ao seu corpo conduzida pela mão da menininha.

Ver o que não está aqui, continuar procurando o que não estou vendo... Será que poderemos ser chamados de loucos? Buscar a transcendência é abrir os olhos para uma nova visão e oferecer os ouvidos a uma nova escuta. Temos padecido de cegueira e de surdez. Vivemos o tempo do absurdo. Estamos aqui para empreender uma tarefa única e intransferível. Somos únicos e seja lá qual for a idade do nosso corpo, nossa alma pode realizar o benefício de uma diferença. A pequena garotinha do filme fez esse trabalho, nos ensinando que não devemos nos acomodar a uma miséria confortável e inútil.

O que eu preciso reencontrar? Esse foi o grito que o filme fez ecoar em mim. O que ando deixando para trás nessa estrada pela qual estou caminhando?

Acho que não devo contar mais nada sobre essa história para que cada um, através de seus próprios passos, descubra o seu reencontro.

Naquela noite, depois do filme, fui dormir com o Mistério.