O mundo já conheceu vários sistemas de governo. Experimentou o império dos reis-deuses e dos reis-homens. Vivenciou a tirania dos ditadores e a força coletiva dos nobres e aristocratas, fundou a república e a democracia, com propostas de mais liberdade, e finalmente tentou o socialismo, buscando espalhar em todo mundo o ideário da igualdade entre os homens.
Dentre todos, e a despeito dos resultados alcançados por cada um deles em seus devidos contextos, é inegável que a democracia foi o sistema que melhor formulou e implementou a idéia de liberdade e igualdade, buscando de todas as formas conciliar a vontade individual com os limites do interesse social. Apesar de nem sempre conseguir tal intento, foi pelo menos a partir dela que se introduziu na sociedade a idéia do diálogo, de uma norma escrita e aprovada por todos e da vontade da maioria, diminuindo um pouco a certeza de que realmente o homem seria o ‘lobo do homem’.
Mas é justamente por esse seu caráter dialógico e normativo que a democracia algumas vezes nos parece um sistema difícil e um pouco confuso, já que para seu verdadeiro exercício é preciso superar as crenças individuais e se abrir para o direito de argumentação de todas as partes envolvidas em qualquer conflito que ocorra no interior da sociedade.
O caso da invasão do terreno às margens da rodovia que liga Franca a Restinga talvez seja um bom exemplo para essa questão. Se analisarmos o histórico da formação social, política e econômica desse país, com certeza concordaremos que a desigualdade sempre foi uma marca constante em nossa sociedade, algo que inclusive ainda nos persegue nos dias de hoje, mesmo que de maneira menos intensa.
De qualquer forma, não é por conta desse passado injusto que agora os mais desvalidos podem ‘se vingar’ do todo social à revelia da Constituição e da Justiça. Se os invasores julgam que por serem mais pobres têm direito à moradia financiada pelo governo e, indiretamente, por toda a sociedade, que se utilizem então de outros caminhos para se fazerem ouvir, como passeatas, comícios e panfletos, por exemplo, e não de invasões de terrenos públicos ou privados que vão contra os princípios constitucionais do direito e da legalidade.
Gostemos ou não, o país escolheu viver sob o regime republicano e democrático, o que implica subjugar-se ao poder da lei. Nesse sentido, a invasão de qualquer propriedade alheia é tão criminosa quanto a apropriação de bens públicos que tanto condenamos em políticos e empresários inescrupulosos.
Mesmo considerando a situação de penúria que muitos desses invasores podem estar vivenciando nesse momento (com certeza não todos), não há como concordar com tal atitude. Relevá-la por conta de uma hipotética justiça social é com certeza mais assistencialismo barato do que democracia plena.