Não fossem alguns poucos barracos de lona improvisados montados às margens da rodovia que liga Franca a Restinga, a invasão de terra promovida no domingo da semana passada por um grupo de cerca de 300 famílias nem seria lembrada. Durante quatro dias, o Comércio visitou o local. Das 16 barracas montadas provisoriamente na área de mais de três quilômetros de extensão, apenas cinco estavam ocupadas por uma ou duas pessoas. Em nenhuma, havia famílias acampadas. O cenário é reflexo do perfil dos invasores.
A maioria das famílias que ocuparam o terreno doado pela Fepasa à Prefeitura de Restinga não é miserável. Grande parte dos invasores trabalha como assalariado em empresas de Franca ou Restinga, motivo que os impedem de permanecer no local. Muitos têm carros antigos ou motos velhas e, apesar da dificuldade, ainda conseguem pagar aluguel. Mas têm o sonho de ter a casa própria, de se livrarem do peso do aluguel para poderem investir em algo que poderão deixar para os filhos.
Por conta disso, não aceitam a denominação de sem-terra. Também fazem questão de deixar claro que não são ligados a nenhum movimento de reforma agrária. “Não queremos plantar nada. Nem precisamos de um terreno grande como os que deram lá na Boa Sorte. Só queremos um tantinho de terra para a nossa casa”, disse Neide (com medo de represálias, quase todos do grupo se recusam a fornecer o nome completo), uma senhora desempregada que ocupava um dos barracos.
Todos se dizem dispostos a pagar pelo imóvel. “Mas tem que ser prestações pequenas de, no máximo, R$ 100, se não, como vamos pagar o terreno e conseguir construir? Não queremos nada de graça não”, afirma Sabrina, uma mulher jovem que não aparenta mais de 30 anos e que também disse estar desempregada.
São raros os casos como o do vigilante desempregado Edson Matos de Souza, de 48 anos. Vindo da Bahia há dois anos para tentar uma vida nova em São Paulo, Edson hoje se diz desesperado. “Eu vim porque tenho uma irmã que mora aqui em Restinga. Achei que ia conseguir fazer a vida, mas não deu certo.” Pai de cinco filhos e avô de uma neta, o vigilante não conseguiu emprego em sua área e teve de se virar como pedreiro. “O problema é que agora é época de chuva. Não consigo trabalhar. Estou morando de favor numa casa sem portas e janelas. Não tenho móveis, nem sei o que meus filhos vão comer hoje. Estou aqui porque não tenho outra opção.”
A família ainda estava na casa emprestada, mas teria que deixar o imóvel neste fim de semana. “O dono pediu de volta, a gente vai ter de sair. Vou trazer todo mundo pra cá. Vim aqui pedir ajuda para arrumar o meu barraco.”
Nos cinco barracos visitados pela reportagem, não havia colchões, roupas ou móveis. Apenas uma estrutura simples de madeira coberta por uma lona. Os invasores garantem que estão vivendo no local. A impressão é outra.
REINTEGRAÇÃO
No acampamento, a organização ainda não é centralizada. Três pessoas são citadas como líderes do grupo, mas ainda assim não há uniformidade de posicionamento. Uma das questões que geram polêmica é a possível determinação de reintegração de posse, já requerida pelo prefeito de Restinga, Paulo Pitt (DEM). Dos cinco entrevistados, a maioria diz que não deve resistir caso a Justiça determine a desocupação da área. “Não queremos briga com a Polícia não. Só queremos um terreno. Estou na luta por uma casa há muitos anos, mas não consigo comprar. E aqui não tem conjunto [habitacional] do governo. Então, essa é minha chance de ter algo”, disse Neide.
Mesmo com toda dificuldade, Edson também disse que deve sair se a ordem de desocupação for dada. “Tenho que pensar na minha família. Como vou enfrentar a polícia com cinco filhos para criar?”, questiona.
Mais radical, Luiz Antônio, um senhor aposentado pai de 11 filhos que disse ter se mudado com a mulher para o acampamento, garantiu que vai enfrentar o que for necessário para conseguir um terreno. “Não vou desistir. Vou enfrentar o que for para ficar aqui.”
Luiz disse que o grupo de invasores conta com o apoio de quatro vereadores da cidade, mas se recusou a fornecer os nomes.
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