20 de março de 2026

Minha profunda compreensão


| Tempo de leitura: 4 min

A renúncia do Papa tem sido o tema mais debatido dos últimos dias. Católicos, ou não católicos, tiveram o que conversar – e tergiversar sobre – desde que Bento XVI anunciou sua decisão

Há tempo, sem ser católica, flagrei-me pensando naquele ser humano que está sob uma tiara, tem um anel especial, se senta num trono, usa roupas brancas e diante de quem parte expressiva da população mundial genuflecta por considerá-lo santo, elo entre o Pai, o Filho, o Espírito Santo e os homens.

Olhava sua foto, imaginava-o sozinho, nos seus aposentos. Rezaria? Entraria em transe? Com quem se confessaria, se é que deveria se confessar por ocupar o cargo mais alto de sua congregação. Teria dúvidas? Com quem as discutiria? E aquele dogma da infalibilidade? Qual a carga emocional que pesaria sobre criatura considerada por seus seguidores alguém que não falha, que nunca se engana ou erra, mesmo que esse poder fique restrito às questões e verdades relativas à fé e à moral? O Papa goza mesmo de assistência sobrenatural do Espírito Santo que o preserva de todo o erro?

Conjeturava se ele sairia da cama para ir ao banheiro; se também leria revistas e jornais ali. Faria exames de laboratório como qualquer mortal? Consultaria médico que lhe faria prospecções, como qualquer outro ser humano do sexo masculino? Sofreria com picadas de pernilongo? Teria coceira no nariz, de alergia?

Imaginava-o um ser acima desses males comezinhos na sua estrutura humana, tão maravilhosa em certos aspectos, tão frágil em outros. Como, infalível e poderoso? Pensava. Não fora concebido e nascera pelo mesmo prosaico processo que todas as outras criaturas espalhadas neste vasto mundo? Teria crises existenciais? Dúvidas? Medo? Pesadelos? Sofreria com a perspectiva da maldade alheia? Qual o tema mais frequente em seus sonhos? Alguma vez pensou em não sair da cama, deixando tudo de lado, enquanto chovia lá fora e tivera insônia à noite? Via televisão? Ele mesmo a ligaria? Quem escolheria o canal? Teria celular? Receberia e-mails? Qual seu endereço particular: papa@vaticano.com.it? Veria filmes? Bangue-bangue? Teria ouvido falar em 007? Alguma vez tomou chuva enquanto caminhava? Sabia andar de bicicleta? Faria ginástica? Praticaria esportes? Teve alguma paixão antes de decidir pela carreira eclesiástica? Algum amor na mocidade? Alguma vez sonhou em ser outro profissional: médico, professor, jornalista? Levou puxão de orelhas quando criança? Com que castigos foi punido quando desobedeceu os mais velhos?

Em que medida o Papa – instituição – seria humano, tema recorrente nas minhas elucubrações, quando no ano passado chegou ao mercado o longa Habemus Papam, de Nanni Moretti. Quase profético: cardeal fictício com problemas existenciais, é eleito Papa mas não consegue se revelar aos católicos que o esperavam na praça para aclamá-lo. Foge da exposição pública e, pior, do Vaticano, para ir conhecer a vida ‘lá fora’ até decidir se voltaria ou não, enquanto bispos e cardeais e carmelengos e o analista (ateu) convocado às pressas, ficaram presos dentro dos muros esperando por ele. Aquele da ficção, pode se rebelar. Menos de um ano e, na vida real, o de verdade abdica de seu cargo e literalmente desce do trono. Não se sabe o motivo. Talvez jamais se saiba a verdade.

Concluí: Papas são humanos e às vezes não conseguem suportar o peso das escolhas que fizeram por ele. Ou das suas próprias. Tornado humano pela atitude inusitada e corajosa, Bento XVI ganhou meu respeito e agora o vejo com meu mais profundo sentimento de compreensão e carinho.

CALOUROS
Há quem reclame da moçada bonita que fica nos semáforos e pede dinheiro pagando mico de calouros. Gosto de contribuir. Prova disso, diminuo ainda mais a velocidade do carro para dar tempo de ajudá-los na brincadeira. Com freqüência, porém, dou uma de mãe temendo que sofram algum contratempo porque eles dançam na frente dos carros ignorando que há gente doida demais nesse mundo. Ou que pouco se importa com a segurança alheia. Ou, pior: sem a menor empatia pela farra deles.

TOBOGÃ
O pontilhão que pretende desafogar o trânsito perto do Fórum e das faculdades municipais é obra e tanto. Ao descer a avenida, sentido Santa Cruz e olhar de perto a descida, senti o mesmo frio na barriga de quando olhei um tobogã pela primeira vez. A descida é acentuada, bastante íngreme, quase tanto quanto é fechada a curva no fim da avenida Rio Negro – que vem do Franca Shopping, sentido Centro – no Complexo Viário Hajel. Seriam projetos do mesmo profissional?

OSCAR
A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood entregará domingo, 24 de fevereiro, com apresentação de Seth MacFarlene, os prêmios do Oscar 2013 divididos em três categorias: som (edição de som, mixagem de som, trilha sonora e canção original), arte (direção de arte, maquiagem e figurino) e direção (direção, direção de fotografia, montagem, efeito visuais). Idealizado em 1929 por Louis B. Mayer, chefe do estúdio Metro Goldwyn Mayer, desde 1941 o prêmio é revelado momentos antes de ser entregue aos ganhadores, cujos nomes vêm em envelopes lacrados, abertos no palco pelos apresentadores. Máximo de aflição e suspense, diferente de quando eram divulgados antes da cerimônia. Barbra Streisand, que há 36 anos não aparecia na cerimônia, se apresentará neste, em homenagem ao cinema e à música.

Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br