08 de julho de 2026

Bento XVI e empresas


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A renúncia do Papa Bento XVI lembra teoria administrativa anterior a Taylor e Fayol, criadores da teoria clássica. A igreja católica sempre foi tida como exemplo de hierarquia forte, controle rígido e centralização. Esta instituição secular conseguiu expandir suas fronteiras em épocas caracterizadas pelas corporações de ofício, artesões e pequenas aldeias com pouca ou nenhuma comunicação entre si. Cardeais, patriarcas, arcebispos, bispos e padres compõem o intrincado organograma. Há cargos como prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica e Vice-Presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano, só para citar exemplos.

Neste tipo de organização, também chamada mecanicista, regras, procedimentos e burocracia são a tônica, gerando um sistema apático, lento e ineficiente, movido a favores e influências políticas, citadas como uma das razões da renúncia. No outro oposto, organizações orgânicas apresentam maior flexibilidade e estimulo à inovação e criatividade, típicas das atuais startups e empresas de Internet. Em épocas de redes sociais e microblogs, não é surpresa que as empresas do segundo grupo tenham maior sucesso.

A igreja também nos leva a pensar sobre a questão da missão, visão e valores das organizações. Duradouras - até certo ponto, já que não se pode mudá-las na velocidade das promoções de vendas - podem e devem ser revistas periodicamente, avaliando-se cenários e tendências, assim como impactos e possibilidade de ocorrência, como destacou o professor da Universidade de Berkeley, David Aaker, em sua ‘matriz impacto versus premência’.

Avancemos algumas décadas até a época dos filmes de 24 ou 36 poses, indispensáveis em qualquer viagem, casamento ou festinha de aniversário. Sua criadora e líder é hoje uma sombra do império que foi no passado, levando-se em consideração o competitivo mercado de imagens digitais.

Seus executivos, preocupados em proteger seus empregos ou talvez desdenhando a nova e incipiente tecnologia, foram engolidos pelos novos entrantes. Discos de vinil, CDs e DVDs seguiram a mesma trilha, para a qual se encaminham também livros e jornais impressos.

Um paralelo pode ser feito com a igreja católica no Brasil. Conforme levantamento do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o País foi a nação católica que mais perdeu fiéis nas últimas décadas. Em 1970, mais de 90% dos brasileiros se diziam católicos. Hoje, são menos de 65%. Grande parte deles migrou para igrejas cristãs pentecostais, que passaram de meros 5% para mais de 20% no período, não obstante os esforços de padres como Marcelo Rossi e seu movimento de Renovação Carismática.

Enfim, qualquer executivo ou conselho de administração preocupar-se-iam com o cenário apresentado: perda de clientes, queda na participação de mercado, produtos e serviços desgastados, estrutura hierárquica engessada, excesso de burocracia, falta de inovação, feudos, dissidências internas, escândalos políticos e financeiros, apesar da marca e tradição quase inabaláveis.

De maneira generalista, este será o cenário que encontrará o próximo papa. Apesar da fumaça branca tão esperada com o fim do conclave, o mandato será caracterizado por trovoadas, nuvens negras e desafios, comparável aos mais badalados e bem remunerados CEOs, os quais pagam com o próprio cargo, resultados abaixo do esperado. Isto era impensável na igreja católica. Hoje não mais, graças a Bento XVI.

Marcos Morita
Mestre em Administração, professor da Mackenzie e tutor na FGV-RJ