O reencontro provoca animada conversa das duas amigas e consequente troca de confidências
Que assuntos rolam numa hora dessas? Viagens, afazeres, família, filhos, problemas, alegrias, marido, trabalho, tristezas, lamentos, filmes, livros, inquietações e esperanças: temas que permeiam qualquer relação de afeto e cumplicidade, daquelas que só velhas amizades desfrutam. Aliás amizade que superou ataque de maldade provocado por – creia! – inveja. Impossível? Não, não é. Pensando bem, até que eu não acreditava muito nisso. Não até entender o mecanismo e a etiologia de ofensivas feitas por pessoas do mal.
Conversávamos quando ela interrompeu o discurso – devia ser assunto importante – abriu os olhos e perguntou se eu havia lido Mentes Perigosas, de Ana Beatriz Barbosa Silva. Livro novo, recém editado. A autora discorria sobre tema pesado: avassalador distúrbio psicológico que possuiria níveis variados de gravidade e que faria de alguns homens e de algumas mulheres seres capazes de destruir, mentir, agir com crueldade, sem medo e arrependimento, sempre na intenção de satisfazerem seus desejos, mesmo que para isso tivessem que destruir, aniquilar ou demolir quem quer que se interpusesse no seu caminho. (Credo!). Ela se referia aos psicopatas, também denominados sociopatas, personalidades anti-sociais, personalidades dissociais, personalidades psicopáticas, personalidades amorais. Sob disfarce de pessoas comuns, eles seriam frios, insensíveis, manipuladores, perversos, transgressores de regras sociais, impiedosos, imorais, sem consciência e desprovidos de sentimentos de compaixão, culpa ou remorso. (Credo!). O pior, mostrou minha amiga apontando parágrafo do começo do livro (que carregava consigo e retirou da pasta), é que tais ‘predadores sociais’ com aparência humana estão por aí, infiltrados conosco. ‘São homens e mulheres que trabalham, estudam, fazem carreira, se casam, têm filhos, mas não são como aquelas pessoas a quem chamaríamos de pessoas do bem. São charmosos, eloquentes, inteligentes, envolventes, sedutores, não costumam levantar suspeitas de quem realmente são. E podemos encontrá-los disfarçados de religiosos, bons políticos, bons companheiros, bons amigos. Visam apenas o beneficio próprio, almejam o poder e o status, engordam ilicitamente suas contas bancárias, são mentirosos contumazes, parasitas, chefes tiranos, pedófilos, líderes natos da maldade.’ (Credo!)
Claro, li o livro rapidinho. Reli o livro devagarinho. E ele mora na minha cabeceira. Está ali para me lembrar que foi divisor de águas na minha vida. Sua leitura não me deixou mais perspicaz: volta e meia sucumbo a investidas e ataques vindos de onde menos espero, como o que quase deu fim àquela amizade. A leitura não me fez mais inteligente, nem mais observadora ou arguta. A leitura abriu-me os olhos e de certa forma me deu condições de me proteger e aprender algo sobre me resguardar. O mais gratificante, todavia, é que, através da aquisição desses e de outros novos conhecimentos passei a me observar melhor, sem influências de auto-piedade ou auto-comiseração e evito me justificar o tempo todo. Errei? Assumo o erro, não boto culpa em ninguém. Fui grosseira? Aprendi a pedir desculpas. Fui indelicada? Engulo seco, e me retrato. Estou chantageando? Esforço-me para interromper o processo. E verifico o tempo todo o nível da minha capacidade empática: o quanto sou capaz de me colocar no lugar do próximo e não fazer ao outro aquilo que não quero que seja feito comigo ou com os meus. Acredito que com tais providências me mantenho razoavelmente sadia. Exceto quando penso em renans, sarneys, cachoeiras, genuínos. Aí a coisa não é tão assim, não.
ASPAS
‘Ciúme é querer manter o que se tem. Cobiça é querer o que não se tem. Inveja é não querer que o outro tenha. A inveja é um vírus que se caracteriza pela ausência de sintomas aparentes. O ódio espuma. A preguiça se derrete. A gula engorda. A avareza acumula. A luxúria se oferece. O orgulho brilha. Só a inveja se esconde.’ (Zuenir Ventura, na abertura de Mal Secreto. Faz parte da coleção Os sete pecados capitais, editora Objetiva.)
‘ARGO’
Filme dirigido e protagonizado por Ben Affleck, indicado a sete Oscars, já ganhou os prêmios Bafta e o Globo de Ouro de melhor filme do ano. Baseado em artigo de 2007 da revista Wired, conta o resgate de reféns norte-americanos no Irã, em 1979. Excelente drama. Tenso, como só poderia ser uma história do gênero, atuação impecável de Ben Affleck. Sem cenas de apelo violento, nem torturas físicas. Ótimo.
ALTIVEZ
Anne Hathaway recebeu o ‘Bafta’ de melhor atriz coadjuvante por sua atuação como Cosette em Os Miseráveis. Disputou o papel com Scarlett Johansson e foi escolhida. Scarlett, com respeito e humildade, reconheceu publicamente que não teria feito melhor, que Anne desempenhou com brilhantismo e competência inigualáveis. Lembrei-me da Vera Loyola: ‘Amigo não é aquele que enxuga suas lágrimas. É aquele que suporta seu brilho.’
FÁBULA
À beira do rio encontravam-se o sapo e o escorpião. O escorpião não sabia nadar e tinha urgência em atravessar o rio. Pediu ajuda ao sapo que lhe negou o favor: temia ser picado por ele e morrer. ‘Como? Por que eu lhe faria isso? Você vai me fazer um favor, no mínimo serei grato!’, disse o escorpião. E tanto pediu, seduziu, manipulou que o sapo concordou. Deixou-o subir nas suas costas e nadou até a outra margem. Ao chegar lá, o escorpião picou mortalmente o sapo. À beira da morte, o sapo ainda teve tempo de se manifestar: ‘Você disse que não me machucaria! Por que fez isso?’ E o escorpião, na maior calma e indiferença, respondeu-lhe, se justificando: ‘É minha natureza. Não posso fugir dela.’
Lúcia Helena Maniglia Brigagão
Jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras - luciahelena@comerciodafranca.com.br