No dia 9 de fevereiro, o SCD-1, primeiro Satélite de Coleta de Dados completa 20 anos em órbita, tendo realizado 105.577 voltas em torno da Terra, e ainda funcionando. Este primeiro satélite brasileiro foi construído com o rigor necessário para que durasse de um a dois anos no espaço. Se durasse seis meses, já seria uma vitória espetacular. Vinte anos, jamais alguém sonhou!
Embora com vários sucessos na área espacial, o INPE e a área espacial nunca receberam atenção especial como recebem as nações do primeiro mundo ou mesmo os companheiros do Brasil no BRICS, Rússia, Índia, China e África do Sul. Qualquer outro país investe muito mais que o Brasil. E não custa lembrar que nosso território é o quinto maior no mundo, e o primeiro em terras agricultáveis. Se não bastasse esse incompreensível desinteresse, o INPE, único executor brasileiro do segmento espacial, terminando o quarto satélite em cooperação com a China, o CBERS, e o primeiro satélite de sensoriamento remoto, o Amazônia-1, hoje, nem sequer faz parte do Conselho da Agência Espacial Brasileira - AEB. Perdeu a posição alguns anos atrás, e chegou-se ao inacreditável: o INPE não participou da elaboração do último Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE), que estabelece as diretrizes e ações do Programa Espacial Brasileiro entre 2012 e 2021.
No novo documento busca-se, até 2016, concluir os projetos dos Satélites Sino-Brasileiro CBERS-3 e CBERS-4, o foguete Cyclone-4, que será lançado a partir do Centro de Lançamento de Alcântara (MA), o Veículo Lançador de Satélites (VLS), o Veículo Lançador de Microssatélites (VLM), o satélite Amazônia-1 e o Satélite Geoestacionário de Defesa e Comunicações Estratégicas (SGDC). E, até 2021, desenvolverá um satélite meteorológico geoestacionário e um satélite radar.
O programa continua ambicioso, mas como os anteriores, desconexo com a realidade atual das instituições brasileiras, seja INPE ou DCTA, da aeronáutica e responsável pelo desenvolvimento dos foguetes. Se no INPE, há vinte anos, havia 1,8 mil funcionários, a maioria dos engenheiros trabalhando nos satélites SCD, hoje, há em torno de mil funcionários. Para os próximos anos, 250 funcionários devem se aposentar. No DCTA, estima- se 600 funcionários. E nem vamos falar da ingerência política nos programas nos últimos anos.
Para lançar o SCD-1 foi necessário o foguete norte-americano Pegasus. Atualmente, o governo investe pouco nos foguetes brasileiros e está apostando na parceria com a Ucrânia (Cyclone-4), que fabrica foguetes, mas não lança. E para piorar a situação, um Zenit, de fabricação ucraniana, falhou no lançamento de um satélite de comunicações norte-americano, colocando em xeque os foguetes ucranianos. Se o governo pretende apostar suas fichas espaciais na nova empresa da Embraer e Telebrás, deveria observar a experiência mundial que mostra que nessa área, nada acontece rapidamente. Excluindo o INPE, o governo somente está acabando com a capacidade brasileira de fazer qualquer coisa que funcione no espaço, e nem cito os 20 anos do SCD-1...
Mario Eugenio Saturno
Tecnologista do INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais