O sonho dos ambientalistas, que prezam pela preservação da natureza e - com razão - clamam por mais áreas verdes na cidade, tem se tornado o pesadelo de moradores de vários bairros de Franca. As APPs (Áreas de Preservação Permanente), previstas no Código Florestal, viraram esconderijo de marginais que traficam e usam as matas como rotas de fuga após praticarem crimes. Além disso, os locais acabam virando depósito de lixo e entulhos. A população também reclama da falta de iluminação pública nesses locais. O policiamento é considerado escasso e, segundo os reclamantes, em certas ocasiões o policial “nem desce da viatura” para vascular a vegetação. As autoridades garantem que projetos estão sendo estudados para tentar solucionar os problemas.
Segundo o secretário de Serviços e Meio Ambiente, Ismar Tavares, Franca conta com 43 matas dentro da zona urbana. Delas, apenas dez são cercadas com estacas e arames farpados. Mas nem isso evita os problemas. É o caso da mata que divide o Jardim Moema e o Parque Santa Adélia. A cerca não inibe a entrada de pessoas.
A dona de casa Regina Rafael, 60, que mora em um conjunto de apartamentos no Moema, em frente à mata, viu um vizinho ter a casa furtada três vezes e desistir de viver no bairro. Ele vendeu a casa e se mudou. Também viu seu prédio ser invadido. “No meu apartamento eles não entraram, mas invadiram outros dois. Roubaram algumas joias, faz um ano e meio.”
O cortador autônomo Edivaldo Coelho Galvani, 44, do Santa Adélia, também acompanha o drama dos vizinhos. Quase todas as casas já foram invadidas. E ele culpa a mata pelo problema. Segundo ele, os bandidos têm a vizinhança toda mapeada e vigiada. “Eles estão com o mapa na mão. Nós, infelizmente, não podemos fazer nada”, disse.
No Residencial Jovita de Melo, uma onda de furtos aterrorizou os moradores neste ano. Eles também reclamam da mata existente aos fundos do bairro. No dia 30 de janeiro, dois adolescentes foram detidos e um homem foi preso após invadirem uma casa, perto da APP do Jovita e serem flagrados pelo morador. Eles foram cercados na mata e escondiam produtos de furto no local. A população do bairro solicitou a limpeza do terreno pela Prefeitura, realizada na última sexta-feira.
TRÁFICO
Os moradores dos jardins Luiza II e Vera Cruz são separados por uma mata, que margeia um córrego. Dos dois lados do ribeirão, o medo e o silêncio predominam. Moradores, que preferiram não gravar entrevistas, disseram que o local é frequentado por “maconheiros”. Alguns jovens que estavam próximo ao local, semanas atrás, se incomodaram com a presença da reportagem e questionaram o que estava sendo fotografado. Segundo o lavrador aposentado Rogério Anderson Machado, 37, do Vera Cruz, é normal a movimentação de dependentes de drogas no local. “São esses maconheiros que passam aí de vez em quando fumando cigarro e pedindo dinheiro para os outros. Mas não dou dinheiro não.”
Também na zona norte, a mata que divide os bairros Jardim Pinheiros e Residencial Moreira Júnior chamou a atenção da polícia. A área de preservação ambiental de pouco mais de 60 metros de largura, acabou sendo transformada por traficantes da região em “quartel general” para venda de drogas. De janeiro a outubro de 2012, cinco operações foram realizadas pela Polícia Militar e dez quilos de droga apreendidos.
SUJEIRA
A mata que separa os jardins Aeroporto II e III também gera incômodo e preocupação os vizinhos. A doméstica Eunice Marques Ferreira, 40, não aguenta mais a invasão de bichos. “Dá medo”, diz ela, que reclama também da falta de segurança. “Tenho que buscar minha filha de 17 anos na escola, às 11 horas da noite.”