Diz uma conhecida expressão popular que ‘uma imagem vale por mil palavras’. Obviamente, isso nem sempre acontece. Há imagens significativamente pobres e palavras habilmente significativas, dependendo geralmente de quem as concebe.
Nesse caso, porém, não há o que discutir. Para quem viu a foto de capa do caderno Brasil no sábado, 02/02, com certeza não resta nenhuma dúvida. A imagem ali estampada é bastante eloquente em relação ao que acontece hoje em Brasília, sobretudo no Congresso Nacional.
Para aqueles que não se lembram, a foto mostra uma trupe bastante insólita e nada quixotesca. Renan Calheiros e José Sarney felizes e risonhos, ladeados por outros ‘compadres’ no mesmo compasso de felicidade, o que deixa muito claro a grandeza do campo a semântico a ser explorado.
Se estivessem todos sérios, talvez a foto não valesse a pena. Os sorrisos escancarados, no entanto, mostram as imensas e inúmeras possibilidades de leitura, quase todas elas bastante negativas para o todo social, infelizmente.
Uma primeira leitura possível é a do deboche. Depois de denunciado pelo Ministério Público ao STF (Supremo Tribunal Federal) por desviar dinheiro público, e depois de ter renunciado ao mandato anterior para não perder os direitos políticos, o senador Renan Calheiros foi novamente conduzido pelos colegas à presidência da Casa. Ao escancarar o riso de Calheiros com os colegas presentes e principalmente com o do colega José Sarney, uma figura política não menos contestada e suspeita, também com inúmeras denúncias acumuladas, a imagem parece debochar de boa parte da sociedade brasileira, como se quisesse dizer: ‘tá vendo, não adiantou nada, porque eles continuam mandando no jogo’.
Um deboche que ganha ainda mais intensidade quando a imagem se soma à foto estampada logo embaixo, na mesma página, que mostra alguns populares protestando contra a eleição de Calheiros, com uma mulher usando nariz de palhaço.
A outra leitura possível é a da provocação. Depois de um ano em que o julgamento do mensalão reacendeu uma pequena chama de esperança no coração dos brasileiros, fazendo-os acreditar que o país havia dado um importante passo em direção a um jogo político mais limpo, ético e equilibrado, eis que mais do que depressa lá veio o Congresso jogar lama no ventilador, espalhando novamente aquela sujeira tão característica da vida pública brasileira.
Se não bastasse o presidente do Senado ser um homem denunciado por improbidade administrativa e estar à espera de julgamento, também a Câmara dos Deputados não se fez de rogada, alçando à presidência da casa o deputado investigado Henrique Alves, também acusado de improbidade administrativa.