08 de julho de 2026

Momo, mas não aquele...


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Os festejos do rei Momo mudaram muito. Alguns, diriam, se modernizaram

Terminaram os tempos do pierrô, do arlequim e da colombina, de tímidos amores platônicos. Hoje são a ‘Loooooouuuuucaaaaa’, o ‘vai pro banheiro (argh!!!) prá gente se beijar’ e vieses como ‘primeiro a gente fo(g)e e depois a gente vê’.

Não só porque é Carnaval – vale o ano todo, todos os anos inteiros – perdeu-se o encanto do olhar, o sabor da conquista que arrepiava a espinha e todo o resto, rosto afogueado. Hoje, ninguém treme ou timida mais. Chega, encosta, leva. E falo delas e deles no ‘arroxa’, não há falsos pudores e nem pudores de qualquer espécie. É apenas pelo prazer do que a Carne Vale. Amanhã tem mais, com outros muitos alguéns. É só olhar em volta do corpo. Não dá nem tempo de escolher.

Não tenho nada contra. Cada um faz o que quer do que tem e distribui. O Ministério da Saúde já desistiu de pregar responsabilidade. Distribuirá 73 milhões de camisinhas para uso no carnaval. Só em Franca, serão 40 mil. Tomara que sejam todas usadas com responsabilidade, já que, por prazer, serão todas usadas, e ainda vão faltar.

Estou, há três semanas, falando de coisas simples, aqui. É claro que tenho saudade dos carrosséis formados por gente que só queria se divertir, rodopiando pelos salões da AEC/Centro, em décadas que não voltam mais.

A embalar, marchinhas, marchas-ranchos e samba, tocadas pelo Laércio de Franca. Lá no meio da ciranda, de quando em quando, um pierrô mais exaltado resolvia se engraçar com colombina que não devia e ai se dava o estouro da boiada. Mas não era rotina. Os tímidos ficavam em volta, olhos brilhantes sobre fantasias lindas, mascaradas ou não, na plena expressão da palavra. Quem sabe, né?

Amores muitos começaram e terminaram ‘na quarta-feira de cinzas’. Incontáveis, perduraram. É bom recordar. Quem viveu, sabe. A saudade torna.

REENSAIOS?
Grandes clubes do Rio de Janeiro e São Paulo vão realizar, este ano, tentativas de reproduzir eventos como aqueles. A adesão de casais e de famílias inteiras, no Rio, cheira boa possibilidade. As bandas estão proibidas de tocar funk, axé, sertanejo universitário. Os estímulos principais estão na saudade de letras com conteúdo, na emoções do brincar apenas, sem segundas, terceiras ou quartas intenções. À alegria pela alegria, enfim. Que prosperem o ‘confete, pedacinho colorido de saudade’ e ‘quanto riso, oh, quanta alegria...’

AS FOTOS DO JAIR
Jair fotógrafo. Lembrei-me dele. Passava quietinho no meio dos salões, fotografando aqui e ali. Dia seguinte, era uma correria de gente desesperada à frente de seu laboratório instalado no fundo de um corredor ao lado da antiga Caixa Econômica da Marechal Deodoro (hoje, calçadão). As pessoas, literalmente, amanheciam lá para ver cada uma das fotos e verificar se Jair tinha ‘flagrado’ algo que não podia ser público. Se alguma ‘coisa proibida’ estivesse lá, era entrar correndo e ‘comprar rápido’, para tirar do quadro. Uau, safei-me. O problema eram as noites restantes. Tinha que ter preparo físico!

A CANJA DO LANDIM
Após a noitada de folia na AEC, era ir ao térreo e pedir a canja de galinha preparada pelo ‘chef’ Orlando (Landim) Dompieri. Lá, com ele, estavam o Turelli, o Reginaldo Régis, e garçons como Waldir, Cantinflas, Solinha, Luís, Zezinho Miranda, Moacir Baixinho, Lazinho, e tantos outros, que a memória não permite numa primeira lembrança mas que foram todos, ‘companheiros inseparáveis de noites mal dormidas’. ‘Descia’, no cansaço da madrugada, como manjar dos deuses. Algumas porções tinham boa quantidade de galinha. Outras, menos, quase nada. A razão era simples. Landim, cansado de cozinhar caldeirões e mais caldeirões, se punha em operação ‘tartaruga’. Punha a água a ferver, temperava, e, em certo momento, pegava uma galinha viva, punha debaixo do braço e ‘passava com ela perto’ da água que borbulhava. ‘Pegava o cheiro’. Estava ‘pronta’ a canja... A fome da gente fazia o resto. Pronto. Contei o segredo guardado a sete chaves por décadas! (Agradeço ao amigo Benny Chagas, por ter me ajudado nessas memórias, já que minha idade não permite tanto quanto era antes).

O CARNAVAL DE HOJE
O carnaval de hoje saiu dos salões e está nos becos, nos bares, boates. Está nas ensurdecedores montanhas de auto-falantes poderosos embutidos no porta-malas de veículos (que os incomodados se retirem...). Está nas delegacias, onde vão parar os que excedem limites. Está nas funerárias, endereçados por volantes bêbados. Está nas facilidades das camisinhas. Está nas ‘barcas’ repletas de coitados que se acham no ‘nirvana’. Está fácil, simples, sem preocupação alguma. Está uma merda, mas, parece que sou só eu que penso assim.

DITADOS POPULARES (DE HOJE...)
Está no Facebook: “no carnaval as ‘mina pira’, os ‘mano come’. Em novembro, as ‘mina pari’, os ‘mano some’...”

Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br