Luto pela educação! Luto pela saúde! Luto pela Petrobrás! Luto pela economia! Luto pelo etanol! Luto pelo meio-ambiente! Luto pelos ministros... Não, você não está entendendo, estou de luto por ter um governo tão despreparado e que pouco faz. Quando falo ‘pouco’ me refiro àquilo que seja ‘óbvio’.
A tragédia na boate Kiss de Santa Maria, RS, é o mais novo exemplo. A boate tinha capacidade para quase mil pessoas e... apenas uma única saída?! E nenhuma estrutura para emergências? Um sinalizador que só é permitido em áreas abertas foi usado em ambiente fechado pela banda. Os seguranças não tinham rádios e demoraram a liberar a saída. Os extintores não funcionaram... Um desastre inacreditável. Saldo? Indefesos, responsabilidade de diversas autoridades: 234 mortos, número que deve crescer nas próximas semanas.
Se não cobrarmos os políticos, outras tragédias ocorrerão. Tivessem prestado atenção no incêndio de Rhode Island, EUA, que matou 100 pessoas e feriu outras 200 (adivinhem, também após um show pirotécnico)...
Quando eu estava na Argentina, vi na televisão o ‘aniversário’ do desastre da boate Cromagnon, em Buenos Aires, 2004. A semelhança clama por justiça. Aconteceu lá, ninguém fez nada aqui.
Em diversos artigos tenho denunciado tragédias que estão por vir, mas, autoridade nenhuma tomou qualquer providência de verdade. O que dizer das enchentes anuais, da violência, de uso de drogas (o Ministério da Saúde informou que as drogas mataram mais de 40 mil pessoas entre 2006 e 2010). Oito mil óbitos por ano, em média. E que o álcool foi a causa da morte de 85% dos casos. Após, vem o fumo, com 11%. Cadê a autoridade para todas essas tragédias?
Que tal lembrarmos da tragédia no trânsito? Só em São Paulo, em 2010, morreram, por causa de veículos, 630 pedestres. Para comparar, em Londres, morreram 77 pedestres em 2011. Na década de 90, lá, a média anual era de 136. Que fizeram os londrinos? Melhoraram a sinalização, fizeram campanhas educativas e envolveram a comunidade.
Ainda falando de trânsito, os casos de invalidez por acidentes quintuplicaram entre 2005 e 2010, saltando de 31 mil por ano para 152 mil. E dessas vítimas, em mais de 70% dos casos o acidentado usava moto. Um desastre para a família e para a nação que paga aposentadorias por invalidez. Some-se, ainda, a explosão de vendas de motocicletas.
Há seis meses eu apresentei uma sugestão: instalar mais e também usar câmeras já instaladas para aplicar multas. Guardas de trânsito bem posicionados também seria suficiente para disciplinar motoqueiros. Usar tachões entre pistas contrárias tem ajudado em São Sebastião (SP). Será que para as autoridades 100 mil inválidos não é chocante? E a tragédia do trânsito não tem fim: em 2011, o trânsito foi responsável pela morte de mais de 40 mil pessoas, número que cresceu 8% sobre o ano anterior. Onde estão os ministros, governos e secretários? Talvez, esperando que deputados e senadores sejam duros e cobrem políticas públicas em favor da vida.
Mario Eugenio Saturno
Tecnologista do INPE - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais