A tragédia de Santa Maria, lá no Rio Grande do Sul, abateu-se sobre nós com a fúria de um terremoto. Comoveu e nos emocionou. Só que não foram as forças da natureza, as causadoras. Aconteceu por culpa de todos nós.
Eu sou culpado. Os órgãos públicos são culpados, inclusive o Corpo de Bombeiros, essa tão admirada instituição. Empresários são culpados. Grupos musicais (as tais ‘bandas’) são culpados.
O povo brasileiro também tem culpa nesse tenebroso e infausto acontecimento que ceifou a vida de 237 pessoas e pode ceifar mais. E não estamos no meio de uma guerra civil como na Síria, no Mali e nem no Afeganistão ou na Faixa de Gaza, com os problemas religiosos e políticos que lá se sucedem. Morreram todos aqui mesmo, ali em Santa Maria, no RS, em uma festa, numa balada como se diz hoje.
Por que somos culpados? Porque somos permissivos. Porque nos acostumamos em buscar brecha nas leis para burlar, para não obedecer. Porque queremos, sempre, tirar vantagens. Do estacionamento, onde buscamos vaga onde é proibido, até ao relacionamento com o fisco, quando procuramos maneira de não pagar, ou de pagar menos impostos. Não há senso ético comum a todos nós que nos leve a comportamento sério, responsável, consciente.
Veja-se o caso dos motociclistas que fazem o chamado moto-frete. As medidas que os protegem foram aprovadas há tempos, com prazo suficiente para a adaptação. Pois não é que estão batendo às portas das autoridades pedindo mais prazo para se colocarem ao lado da lei? Enquanto isso, promovem passeatas que resultam apenas em mais transtornos e engarrafamentos de trânsito.
Hoje, autoridades e cidadãos estão preocupados com boates. Mas, e os outros estabelecimentos onde há concentração de pessoas, como shoppings, arenas (estádios), campi universitários, sobretudo os construídos verticalmente. Será que cumprem as normas de segurança? A ‘arena’ do Grêmio, recentemente inaugurada, mostrou sua fragilidade no último 30 de janeiro e, por pouco, não termina em mais uma catástrofe.
Tudo isso, por quê? Nosso padrão ético gerou demônio chamado ‘jeitinho’ que, durante anos a fio foi aclamado como fruto da enorme criatividade brasileira.
Com isso, cometemos um grande mal: confundimos Macunaíma com o gênio do bem. Todos querem dar um jeitinho, arrumar modo de fazer as coisas mais fáceis, de não cumprir o que manda a lei, de escamotear a norma, de fugir (se possível, impunemente) à responsabilidade.
O ‘jeitinho’ é pai dessa terrível tragédia, ajudado pelo descaso, pela conveniência, pela corrupção. Ganhou até um meio-irmão, o ‘puxadinho’, que também já se disseminou, pois está no suntuoso aeroporto internacional e na favela mais miserável.
Todos devemos nos questionar. Até quando vamos conviver com esse maldito vicio travestido de capacidade criativa, de virtude? Até quando vamos ter de tolerar irresponsabilidades e chorar tragédias?
Em nome dos 237 que tiveram suas vidas tão precocemente ceifadas, precisamos abandonar esse nefasto costume e assumir ética de responsabilidade em nome deles, dos nossos filhos e dos nossos netos.
Vicente de Paula Oliveira
Economista