Cabelo de ‘personalidade’, roupa casual e um jeito espontâneo são marcas que Zé Roberto carrega do dia a dia para os palcos. O cantor - que já viveu por 10 anos em Franca - acaba de voltar à cidade e, enquanto colocava sua casa em ordem, recebeu o Comércio para um bate papo na última semana.
Antes mesmo que a primeira pergunta fosse feita, Zé Roberto tomou a frente e pôs-se a falar: “Queria dizer que estou muito feliz em estar de volta porque gosto muito dessa cidade. Já cheguei trabalhando! Tenho show agendado no Picanha (Na Tábua) até julho.”
Quem vivenciou as noites francanas nos anos 90, provavelmente cruzou com a voz afinada de Zé Roberto. Quer seja integrando a banda Gênesis, a Sistema B, ou mesmo solo, ele foi figurinha carimbada em eventos, barzinhos e festas com seu repertório versátil que vai da MPB ao soul. “Para mim todos os ritmos são válidos. Não saberia escolher um que mais me atraia. Eu acredito é na música boa”, disse evidenciando seu ‘paladar’ eclético.
Entre os muitos desejos que arquiteta hoje, com maior maturidade musical, está o de projetar-se com trabalho autoral. De acordo com o músico, seu atual momento de evidência o instigou a registrar algumas de suas composições e a trabalhar para lançar um álbum. “Em 2008 saí vencedor de um concurso promovido pelo Leandro Lehart. Compus uma canção no estilo mestiço e ele gostou tanto que me convidou para atuar como backing vocal em seu DVD. Tive o prazer e a oportunidade de cantar ao lado de Seu Jorge, MV Bill, Planta e Raiz, Alcione, Jorge Aragão, Velha Guarda da Vai Vai, Jair Rodrigues... Agora quero dar continuidade a meu trabalho autoral; tenho músicas próprias que quero voltar a tocar.” A música que lhe garantiu o primeiro lugar do concurso foi Samba Rock Hip Hop do Mestiço Brasileiro.
INICIAÇÃO MUSICAL
Olhando hoje para a carreira que construiu na música, fica difícil imaginar que nos caminhos que percorreu Zé Roberto tenha se envolvido em atividades como a de torneiro mecânico e peão de boiadeiro. “Me formei no Senai como torneiro mecânico. Trabalhei em uma fábrica de refrigeradores por dois ou três anos quando era adolescente. Já entreguei jornal, peixe, trabalhei na feira, como porteiro e quase fui peão”, disse aos risos como se resgatasse da memória uma imagem engraçada vivida há muito em Itú, sua terra natal. “Uma vez ganhei uma bicicleta em montaria de boi. Conheci alguns amigos que moravam perto de casa, trabalhavam com gado e tinham filhos da minha idade (8 anos). Então eu ia com eles para a fazenda com calça ‘agarrada’ e chapéu na cabeça. Foi uma fase muito gostosa da minha infância.”
Quanto à música, o contato veio permeado pela admiração que sentia por seu tio Eugênio que, além de sargento do quartel de Itú, era integrante do Coral da Igreja da Candelária na mesma cidade. “Aos 11 anos perdi meu pai, João, e me apeguei muito a meu tio. Aprendi a tocar violão vendo ele tocar. Sempre que eu ia almoçar em sua casa, tio Eugênio colocava para eu ouvir: Frank Sinatra, George Benson, The Jacksons 5, Commodores, Tim Maia, Jair Rodrigues...” Com o tempo Zé Roberto foi absorvendo essas referências e quando se deu conta, estava na casa do tio, imitando seus ídolos. “Meu primo me viu cantar e tocar essas coisas e me chamou pra brincar com a banda dele na garagem. Eu tinha 14 anos nessa época e essa foi minha primeira banda: Favo de Mel.” A brincadeira então saiu da garagem a atingiu a cidade. Através de um projeto que chamava-se Circuito dos Bairros, Zé Roberto e os amigos ganharam notoriedade se apresentando em palcos itinerantes montados pela prefeitura. “Começamos a tocar aos domingos nos bairros e ficamos conhecidos. O nosso grupo estava num nível tão legal, que passou a ser a banda oficial dos encerramentos. Desde então venho levando a música como algo profissional.” Mesmo encarando a carreira como um propósito sério, somente aos 23 anos passou a se sustentar exclusivamente com o que conseguia nos palcos e acabou por distanciar-se da Favo de Mel. “Parti para grupos profissionais, como a Doctor Jones, com quem tenho dois álbuns gravados. Em 1993, conheci o pessoal da banda francana Gênesis. Fiz um teste, me mudei para cá e trabalhamos juntos por 10 anos. Para mim é uma das melhores bandas do Brasil. Em 2003 voltei para Itú e fiquei por lá até o ano passado”, disse antes de completar com um largo sorriso no rosto: “Agora estou de volta!”.